quarta-feira, 26 de abril de 2017

Já não há bernardinos assim...

Foto Hernâni Von Doellinger

Já sabem, eu não posso ver zés-pereiras, que me perco. Os "trampolineiros" da minha infância alegram-me os dias da madureza, descompassam-me o bater do coração, tornam-me a Fafe e à pureza original, comovem-me. Queria que houvesse discos pedidos para poder encomendar todos os dias o "Resineiro" cantado de mansinho mas bem picada de tasco em tasco. Queria pedir desculpa por ignorantemente lhes ter chamado "trampolineiros", coisa feia. Eram, são, tamborileiros. Os tamborileiros da minha alegria triste. E portanto cá vai mais uma vez, versão refinada e aumentada:
O meu avô Bernardino Neques, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria, tinha o seu lado musical. Desunhava-se satisfatoriamente com a concertina e o acordeão, e já velhinho veio-lhe a mania do violão, lembro-me que com alguma falta de jeito, Deus me perdoe se estou a ser injusto. Esqueçamos, porém, o violão, o acordeão e a concertina, que foram só para meter conversa. Tornemos aos bombos, à caixaria.
O Neques do meu avô Bernardino não era de baptismo. O verdadeiro nome do meu avô de Basto era Amigo Pereira - assim lhe chamava toda a gente por essas feiras e romarias ali à beira, a começar pela Lagoa, onde ele varria o terreiro com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, e suponho que não é preciso dizer mais nada para que se perceba de que marca era o homem. (Mas vou dizer: quando fazia de jogador do pau e estava satisfatoriamente avinhado, o meu avô tinha um grito de guerra que era "Olraitecamoniésse!". E tinha um cão de pele e osso ao qual dera o nome de Tuísta, que queria dizer Twist. O meu querido avô era anglófilo americanado e não sabia. De americano, o Bô só conhecia o vinho, e talvez o João massagista, mas desta parte não tenho a certeza.) A alcunha que ficou famosa, Neques, veio-lhe do tempo de moço, contava-se, quando rufava a bom rufar na caixa, honesto instrumento por onde começou na arte. E tocava naquele ritmo que ele gostava de explicar como neque-neque-neque, neque-neque, neque-pum. Neques, pois.
O meu avô era apaixonante. Obviamente Banda Revelhe, por causa do meu pai e por bom gosto natural. E o toque de caixa, para o Amigo Pereira, tinha ciência, solfejo. Gostava de perguntar-me, por exemplo, "Quantas pranas tem uma rana?", como se estivéssemos a elaborar sobre fusas e semifusas. Eu dizia que não sabia, que era o que o velho Neques queria ouvir, para logo a seguir me ensinar, matreiro e mais uma vez, "Conta-as, rapaz: rana-catrapana-catrapana-pana-pum; quantas são?..."
Já não há bernardinos assim. E faz-me diferença. Pum.

Em Fafe, obviamente!


Rally de Portugal, de 18 a 21 de Maio. Para (vi)ver na catedral, na meca, na praça de são pedro dos ralis: em Fafe, obviamente. No último dia, o dia de todas as decisões. Mais informação, aqui.

Feridas de guerra 9

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

Manuel Teixeira, 42 anos, suicidou-se. João Silva, 41 anos, aguarda julgamento por homicídio. José Rodrigues, 45 anos, faz terapia de grupo. António Pereira, 51 anos, vive obcecado pelas "injustiças" e já pensou matar ou matar-se - convive desde 1963 com psiquiatras e tranquilizantes. Manuel, João, José e António têm em comum a Guerra Colonial e o medo dos seus medos. São casos à mostra dos cerca de 140 mil ex-combatentes portugueses atingidos pelo stress de guerra, essa doença camuflada numa espécie de clandestinidade.

"Doutora, vou-me matar!"
A verdade é que só agora a ciência arranca buscando explicações inteligentes para o sofrimento destes homens, e a estatística oficial, para além de referenciar os 25 mil feridos e os 10 mil mortos directos da Guerra Colonial, pouco mais adianta.
Quem está por dentro do assunto garante a existência de vários casos de suicídio (dois no último ano, só na área do Porto) e muitos de homicídio com raiz no stress de guerra. E falam-me de desesperança de vida, que faz com que "muitos se vão embora aos 40 anos", e de alcoolismo, e de cirroses, e de droga, e dos divórcios, e de sem-abrigo, e do homem que em apenas um ano correu mais de cem empregos, e da falta de coragem da Nação para encarar e assumir as suas obrigações. O que tem sobrado é o silêncio.
Porque, para começar, como denuncia Paula Frazão, a psicólogo clínica, o Exército tem de admitir que, excepção feita às chamadas forças especiais, "a maior parte da tropa ia para a guerra, técnica e psicologimente, mal preparada, e muitos acidentes aconteceram por causa dessa má preparação".
Está clinicamente provado: o DPTS pode ser prevenido - e foi-o recentemente na Guerra do Golfo - se o soldados forem esclarecidos de que o medo e a ansiedade fazem parte da guerra, são situações normais, humanas, e não sinais de cobardia ou de doença mental. Além disso, o desenvolvimento de  um DPTS crónico até pode ser evitado se o soldado, em plena fase aguda, for atendido próximo à frente de batalha, iniciando imediatamente os tratamentos e sendo mentalizado para a expectativa de retorno aos deveres normais e para a brevidade do contacto terapêutico.
Menos do que pensões, os traumatizados pela guerra reclamam atenção, atendimento, compreensão, apoio, tratamento. Há quem tema que, com o andar dos anos - porque a doença, não sendo tratada, tende a agravar-se -, os demónios de África venham a degradar inexoravelmente os restos de vida dos ex-combatentes envelhecidos. A Nação terá de estar preparada para o desmoronamento de toda uma geração...
Aos centros da ADFA chegam todos os dias, e cada vez mais, pedidos de socorro, lágrimas por uma "última tábua de salvação" para um filho, para um pai, para um marido, para um irmão, para um amigo. Gente à beira do abismo. O bom-dia que Paula Frazão ouve muitas vezes quando os seus doentes lhe entram no consultório é: "Doutora, vou-me matar!..."

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Vejo no DN que finalmente o País parece querer fazer alguma coisa...
Os nomes dos ex-combatentes são, aqui no Tarrenego!, fictícios.

O manequim do primeiro-direito

Foto Hernâni Von Doellinger

Godofredo Filho

Soneto do vinho do Porto

Fruto em verde ou de ígneo e azul, tocado
da música da alva. Ó tessitura
de esférico sabor, lúdico aroma
de pomo etéreo. Os beijos que não são.

Desliza em rota insone. E eu te procuro,
ó domador do tédio. E, travo e mel,
de seu conúbio vegetal ressumbram
no liquefeito olhar das feras bravas.

Que do xisto azumbrado a fulva luz
tornada em sumo e veludoso gosto
por sobre a calcedônia do desejo.

Vinho que sabe a amor sem fim, ocíduo
clarão que incide às tardes sobre o Douro,
ou de Andrômeda o riso e o de Canopo.

"Sete Sonetos do Vinho", Godofredo Filho

(Godofredo Filho nasceu no dia 26 de Abril de 1904. Morreu em 1992.)

O Porto aponta ao céu 15

Foto Hernâni Von Doellinger

Caetano da Costa Alegre

Visão 

Vi-te passar, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.
Ias de luto, doce, tutinegra,
e o teu aspecto pesaroso e triste
prendeu minha alma, sedutora negra.
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
foi-te seguindo o pequenino passo
até que o vulto gracioso e lindo
desapareceu, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.


Caetano da Costa Alegre 

(Caetano da Costa Alegre nasceu no dia 26 de Abril de 1864. Morreu em 1890.)