domingo, 19 de novembro de 2017

Lições de História 18: o Texas

O Texas era um tasco em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, nunca soube derivado a quê. Estão a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria e encostado ao Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas? O Texas era exactamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no mapa dos Estados Unidos da América, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto e branco e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois (com)passos, coisa tão a calhar, com o querido Senhor Ferreira do Hospital ou com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...
Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e bovino. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia...
Em todo o caso: no Texas, no nosso Texas, um palerma do calibre de Donald Trump nunca seria escolhido sequer para fazer a escrita da sueca...

Globetrotter 9

Foto Hernâni Von Doellinger

Benito Losada

A figueira

Antonte pol a miñan,
a coller figos a' eirá
foron Mariquiña e Xan;
ela subeus' á figueira
e Xan deitouse n'o chan.

Dixoll' ela: - Bouch' á dar
o millor, q' o estou collendo.

El, sin os ollos virar,
respondeulle: - Estouno vendo,
mais non lle podo chegar.


"Poesías", Benito Losada

(Benito Losada nasceu no dia 19 de Novembro de 1824. Morreu em 1891.)

Caminho 426

Foto Hernâni Von Doellinger

Leandro Gomes de Barros 4

O cavalo que defecava dinheiro

Na cidade de Macaé
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Desejava possuir
Todo objeto que via

Esse duque era compadre
De um pobre muito atrasado
Que morava em sua terra
Num rancho todo estragado
Sustentava seus filhinhos
Na vida de alugado.

Se vendo o compadre pobre
Naquela vida privada
Foi trabalhar nos engenhos
Longe da sua morada
Na volta trouxe um cavalo
Que não servia pra nada

Disse o pobre à mulher:
- Como havemos de passar?
O cavalo é magro e velho
Não pode mais trabalhar
Vamos inventar um "quengo"
Pra ver se o querem comprar.

Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado
No fiofó do cavalo
Foi o dinheiro guardado
[...]

Leandro Gomes de Barros 

(Leandro Gomes de Barros nasceu no dia 19 de Novembro de 1865. Morreu em 1918.)

A ponte é uma passagem 28

Foto Hernâni Von Doellinger

Maximiano Campos 2

Lavrador do tempo

Lavrador do tempo e incerteza,
plantei ilusão e alegria,
pensando que colheria
uma safra de certa beleza

fui buscar as cores da natureza,
as cores que nela havia,
claridade, luz do dia,
para poder ter a certeza

que este poema seria
luminoso e transparente
claro e limpo feito o dia

para ofertá-lo traria
num verso raro e fluente,
o tempo que dele sairia.

Maximiano Campos

(Maximiano Campos nasceu no dia 19 de Novembro de 1941. Morreu em 1998.)