domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão


O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras


- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"


Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço


O poema, senhores,
não fede
nem cheira.


Ferreira Gullar

(José Ribamar Ferreira, que usava o nome literário de Ferreira Gullar, morreu hoje. Nasceu no dia 10 de Setembro de 1930.)

Onde é que está o Wally?...

                                                                                                   Foto CÂMARA MUNICIPAL DE MATOSINHOS

As dez maiores tangas da História de Portugal 6

6. O luso-tropicalismo. Na definição de António Manuel Hespanha, quando lha pedi, o luso-tropicalismo é aquela ideia bonita sobre "a natureza especial do povo português para um convívio harmónico e não discriminatório com outras raças", essa extraordinária habilidade civilizacional de sermos mansos que viria desde os tempos em que o País andava de cueiros e até hoje.
E vai-se a ver, uma treta. O professor universitário e historiador ensinou-me que, pelo contrário, Portugal "exerceu e manteve até mais tarde do que a generalidade dos países um domínio duro e discriminatório sobre os povos colonizados". E só para piorar a nossa fotografia a preto e branco: apesar da letra das constituições oitocentistas, Portugal "não concedeu direitos aos "portugueses do Ultramar", aboliu a escravatura muito tarde e descolonizou em último lugar"...
O professor Fernando Sousa iria ainda mais longe, garantindo-me que "os Portugueses não mataram tanto como os Espanhóis porque no Brasil não havia muita população"... De resto, o historiador recordou-me que "se multiplicaram as matanças" nas Campanhas de África e durante a I Guerra Mundial, como já tinha acontecido antes no Oriente, onde "saqueávamos e matávamos com facilidade e regularidade".
Meninos para o preciso, éramos. Somos?

A cidade das traseiras 13

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Eduardo Dall'Alba

As palavras 

As palavras, como as sementes
devem plantar-se em terra boa. 
E se espalhar a toda gente 
ou perdê-las no fino da garoa. 
As palavras, como as sementes 
devem plantar-se em terra arada, 
para que o broto mesmo ingente
possa brotar do sal da terra 
e assim semente, ao ver-se semeada 
como ao discurso da palavra usada, 
como a palavra em poema.
As palavras, colhê-las como as uvas 
na hora precisa, no poema certo. 
Sugar-lhes o líquido sagrado 
do sentido, até que fartos 
do discurso e embriagados de palavras 
durmamos o sono simples dos mortais 
sem nem sentido precisarmos mais. 

"Vinhedo das Vontadas", Eduardo Dall'Alba

(Eduardo Dall'Alba nasceu no dia 4 de Dezembro de 1963. Morreu em 2013.)

Os meus cromos 16

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Filinto de Almeida

A raiva de Nise

Ao que eu te digo de carinho e enleio
Respondes irritada e desdenhosa?!
Enfim, o espinho é natural na rosa
E ama a serpe esconder-se em morno seio.


No meio de um mirtal em flor, no meio
De uma seara próvida e viçosa,
Às vezes surge planta venenosa
E sapos coaxam no mais claro veio.


Vênus, a doce e branda, contam poetas,
De onde em onde também se encoleriza;
Nas flores mesmo há cóleras secretas.


Raiva, pois, meu amor pisa e repisa,
Não me arreceio do furor que afetas:
Que é o vendaval? a cólera da brisa.


"Cantos e Cantigas", Filinto de Almeida

(Filinto de Almeida nasceu no dia 4 de Dezembro de 1857. Morreu em 1945.)