segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

João Ubaldo Ribeiro 4

- Aqui a tem Vossa Excelência! - dissera o padreco, um desses velhos que não conseguem rir mesmo quando têm vontade, fazendo apenas uma caretinha débil e fibrilante, os lábios tremelicando como se temessem afastar-se um do outro durante mais que um segundo.
- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minutos antes, tinha relido, no topo da lista das providências: "Certidão Dutton". Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno rasgão numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou, leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton! Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem, soa muitíssimo bem?
O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delicadamente a bainha da manga direita contra os cantos da boca, para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento requeria um comentário menos desentusiasmado.
- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom!
- Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, John Malcolm Dutton.
- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tratar-se de um apelido francês.
- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que parente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E minha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castello.
- De Viana do Castello?
- Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá?
- Não, não, sou ribatejano.
- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.

 "Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro

(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)

Vida de cão 187

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger

Viriato Correia 4

O povoado em que eu nasci era um dos lugarejos mais pequenos, mais pobres e mais humildes do mundo. Ficava à margem do Itapicuru no Maranhão, no alto da ribanceira do rio.
Uma ruazinha apenas, com umas vinte ou trinta casas, algumas palhoças espalhadas pelos arredores e nada mais. Nem igreja, nem farmácia, nem vigário. De civilização a escola, apenas.
A rua e os caminhos tinham mais bichos do que gente. Criava-se tudo solto: as galinhas, os porcos, as cabras, os carneiros e os bois.
Vida pacata e simples de gente simples e pacata. Parecia que ali as criaturas formavam uma só família. Se alguém matava um porco, a metade do porco era para distribuir pela vizinhança. Se um morador não tinha em casa café torrado para obsequiar uma visita, mandava-o buscar, sem cerimônia, no vizinho.
A melhor casa de telha era a da minha família, com muitos quartos e largo avarandado na frente e atrás. Chamavam-lhe a Casa Grande por ser realmente a maior do povoado.
Para aquela gente paupérrima, éramos ricos.

"Cazuza, Memórias de Um menino de Escola", Viriato Correia

(Viriato Correia nasceu no dia 23 de Janeiro de 1884. Morreu em 1967.)

A ponte é uma passagem

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Ypiranga Monteiro

- Olho a tarde que finda... A espessa bruma
vela os contornos da paisagem queda
e as horas vão tecendo, uma após uma,
sobre o meu tédio um pálio gris de seda. 


As flores que colhi morrem exalmas,
hastis dobrados nos bocais das jarras.
(É assim que morrem, pelas tardes calmas,
os poetas, os lírios e as cigarras...)


Flutua a solidão aqui em tomo
onde somente o pêndulo assinala
breve, monótono, insistente e somo,
a ausência dela nesta pobre sala.


"Dona Ausente", Mário Ypiranga Monteiro

(Mário Ypiranga Monteiro nasceu no dia 23 de Janeiro de 1909. Morreu em 2004.)

Lugares-(in)comuns 234

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Severiano de Resende

Hipogrifo 

Resfolega o hipogrifo, indômito, batendo
no asfalto as patas de ouro; e os olhos de águia adusta,
sobre as nuvens e além dos sóis ovante erguendo,
já no azul a cabeça em fogo barafusta.

O éter transpõe, afiando as asas, belo e horrendo,
e haurindo a Vida e a Graça e a Idéia eterna e augusta,
ó como eu nesse arroubo insofrido compreendo
que ao estranho hipogrifo o gesto astral não custa.  

No solo os áureos pés, no empíreo em glória a fronte,
terras, mares e céus, de horizonte a horizonte,
mede, calcando o pó, e os pátamos transcende.  

Brotam fráguas de luz na poeira dos seus rastros
e nas landas glaciais e tristes, ermas de astros,
novas constelações o seu hálito acende.

"O Hipogrifo, São Sebastião e Outros Poemas e Prosa", Severiano de Resende

(Severiano de Resende nasceu no dia 23 de Janeiro de 1871. Morreu em 1931.)