domingo, 29 de setembro de 2013

Cavaco Silva pára tudo

O jovem vimaranense João Sousa é o primeiro tenista português a ganhar um torneio ATP. Cometeu a façanha esta manhã, em Kuala Lumpur, capital da Malásia. Comoveu-me de alegria. E recebeu imediatamente, "de viva voz" e via televisão, os parabéns do Presidente da República. Está certo. Deste vez Cavaco não fez asneira: informou-se junto dos seus assessores e percebeu logo à primeira - o "ténista" não era bombeiro e não morreu a apagar incêndios no monte. Não havia portanto tempo a perder nem delegações a fazer. O jornal digital Maisfutebol chegou a escrever em título que Cavaco Silva "parou tudo" para felicitar o novo herói da raquete, mas, decerto tomando sentido ao dia, retirou rapidamente a inocente argolada. Com um arreliador senão: esqueceu-se dela no Facebook...

É um dia em cheio no Palácio de Belém. Seguem-se os parabéns ao poveiro Rui Costa, que acaba de sagrar-se campeão do mundo de ciclismo, em Florença, Itália. O Presidente está assoberbado de serviço.

Quem chama?

Foto Hernâni Von Doellinger

Rio-me por tudo e por nada

Gosto das escorregadelas em casca de banana. É humor de casca-grossa. Mas prefiro os trambolhões em pele de cereja - piada fina. A vida é uma comédia e há quem não saiba.

sábado, 28 de setembro de 2013

Outono enfim

Foto Hernâni Von Doellinger

António Jacinto

Carta de um contratado

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma cara
amor
uma carta de confidências íntimas
uma carta de lembranças de ti
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que te levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também! 


"Poemas", António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A arma do povo

- Votas?
- Não.
- Olha que o voto é a arma do povo.
- Pois, é pena.

O meu primeiro e único carro

                                                                                                Foto MUNDIAL FOTOS

O senhor de óculos e sem boné é Baltazar Rebelo de Sousa, ministro do outro tempo, destacado colaborador de Salazar e Caetano, pai de Marcelo Rebelo de Sousa e grande amigo de Fafe. Ia lá à minha terra muitas vezes e nunca de mãos vazias. A fotografia conta uma das suas visitas aos Bombeiros, e à direita, impecavelmente fardado de gala, está o carismático e severo comandante Luís Mário, pai do comandante Armindo, querido amigo que tive a sorte de rever e abraçar na última Senhora de Antime.
Nenhum deles, porém, interessa para o meu assunto. Eu quero é falar do carro que domina a cena. Uma velha Austin, refugo inglês da Segunda Guerra Mundial, tal qual os pesados capacetes pretos para incêndios, os cintos com machadinha e tudo e os blusões de serviço, iguais aos dos soldados nos filmes. Foi material que deu jeito, que cumpriu por muitos e bons anos. Menos, se não me engano, as sinistras máscaras antigás, que só serviam para as minhas brincadeiras de miúdo e ficavam muito bem em cima dos armários.
O carro tinha nome, chamava-se Carrinha e, de acordo com o "MG" da matrícula, ainda deverá ter passado pelos pés do Exército português antes de chegar a Fafe, orgulhosamente de volante à direita e "piscas" de puxar por um cordel, como o coiso do fradinho das Caldas. Tinha também manias e birras, provavelmente derivado à idade, e constava que só o Casimiro das Caixas lhe conhecia as neuras e sabia fazer-lhe as vontades todas - o Casimirinho era, pois, o nosso especialista em Carrinha.
A Carrinha apareceu na minha vida já completamente coberta por uma chapa ondulada em forma de U invertido e com uma grossa lona e correias de cabedal para fechar atrás. E foi o meu primeiro e único carro. Quer-se dizer: o carro não era meu, nunca foi meu, nunca o levei para casa nem dormi com ele, mas a verdade é que nunca conduzi mais nenhum. E conduzir talvez também não seja o verbo adequado ao caso, portanto passo a explicar:
Mal dei fé que chegava aos pedais, o que eu fazia era ligar o motor e solavancar as mudanças até que uma delas, uma qualquer, pusesse o carro a andar. Às vezes calhava para a frente, outras vezes calhava para trás. Viajava imensos dois, três metros, e invertia a operação, sem curvas, novamente com a alavanca à sorte, voltava ao exacto centímetro de partida e depois desaparecia dali a todo o gás, antes que alguém me descobrisse o sítio das orelhas. Esta parte era muito importante.
Uma vez o quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro entrou em obras, crescendo para a frente, e os carros dos Bombeiros mudaram-se provisoriamente para uma garagem muito grande do "benfeitor" José Freitas Nogueira, bastava dobrar a esquina, no encontro da Rua Monsenhor Vieira de Castro com a Rua Dr. José Summavielle Soares, quase em frente ao campo de futebol. Era um enorme portão verde e tinha lá dentro, assim que se entrava, uma rampa muito jeitosa para as minhas habilidades. Sobretudo ao baixo. Melhor ainda: ali o meu avô não ouvia as coças que eu dava na desgraçada caixa de velocidades da pobre Carrinha, gemente e ganinte por todos os lados. Bons tempos...
Dei também as minhas voltas no carro de bois do Sr. José do Santo e, com expressa licença da minha mãe, na carroça do Moniz azeiteiro ("Os azeites do Moniz são os melhores do País", dizia na retaguarda), mas, francamente, não eram a mesma coisa. Não me enchiam as medidas. Nem os carrinhos de choque, de que fui, não é para me gabar, prestigiado ainda que bissexto praticante. Não. Nada. A Carrinha foi o meu primeiro e único carro. Como no amor. Nunca mais quis outro.

Lugares-comuns 97

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Lengalenga

Doze, rebaldoze, vinte e quatro com catorze, dezasseis mais vinte e um - faz um cento menos um. Esta ensinou-ma assim o meu avô da Bomba. Eu teria sete, oito anos e não sabia de Alves Redol e de "Gaibéus". O inefável Dezassete decerto também não. A vida aprende-se de ouvido.

Vida de cão 11

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Barco encalha à entrada de Leixões 2

O acidente começou a desenhar-se pouco antes das sete horas, com o Trajano a perder o governo e a balançar perigosamente em direcção ao paredão sul do Porto de Leixões. E encalhou. Cerca de uma hora depois, um dos tripulantes colocou a mochila às costas e lançou-se ao mar, nadando até à praia. Chegou a terra com alguma dificuldade, a lamentar "o barco cheio de peixe" e a resmungar contra o piloto, que, dizia ele, "adormeceu". E desandou dali para fora.
Acudiram outras embarcações de pesca e, depois, uma lancha da Polícia Marítima. Ao fim de algum tempo conseguiram resgatar os restantes pescadores e estabilizar a traineira. O desencalhamento foi tentado, mas falhou, mesmo após a intervenção dos pilotos da barra, que chegaram já em horário de expediente e com a força de um rebocador.
Em Dezembro de 2009, o Trajano - que se encontra à venda no site da OLX - encalhou nas rochas da praia da Aguda, Vila Nova de Gaia. Esteve lá atascado durante quase um mês. Está agora ali em baixo, de proa apontada ao areal, decerto à espera de melhor maré.

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger
                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger
                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger
                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Barco encalha à entrada de Leixões

Foto Hernâni Von Doellinger

Há momentos, junto ao areal da Praia de Matosinhos. Decorre tentativa de desencalhamento, com a ajuda de outras embarcações de pesca e da Polícia Marítima.

(Mais em Barco encalha à entrada de Leixões 2)

Achei uma carteira

Achei uma carteira e dirigi-me ao polícia mais próximo. O polícia disse-me educadamente mas para que é que eu quero esta merda, ó excelentíssimo indivíduo? Para acender o caralho do cigarro, ó ilustre autoridade, expliquei eu não menos cortês. Efectivamente a carteira era de fósforos.

Lugares-comuns 96

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Há poesia na Afurada do fotógrafo Gaspar de Jesus

Antonio Tabucchi

A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

"Tristano Morre", Antonio Tabucchi

(Antonio Tabucchi nasceu no dia 24 de Setembro de 1943. Morreu em 2012.)

A minha melhor entrevista


Figueira de Castelo Rodrigo, um calor do caraças, aqui há uns anos. Para quem não me conhece, eu sou, em primeiro plano, o da esquerda. Obviamente.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (1924-2013)

Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


"Viagem Através de Uma Nebulosa", António Ramos Rosa

Lugares-(in)comuns 56

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Abel Botelho

- Essa ceia está pronta? - perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.
- Há que tempos! - respondeu-lhe, sem o olhar, uma mulherita atarracada e bruna, que no vão da chaminé, à esquerda da porta, mesmo junto à esquina, de candeia suspensa da mão esquerda mexia um tacho de barro fumando sobre e fogareiro. 
 - Bem... vamos então a aviar! - comandou o operário, numa leve impaciência, atirando o corpo descadeirado e longo para cima dum mocho de pinho, de encontro à mesa, do outro lado da porta de entrada, e projectando o chapéu com arremesso. 
- É pra já! - acudiu de salto a mulher, enquanto lhe vinha perto pendurar a candeia, dum grande prego enferrujado. A seguir, foi à chaminé, tornou, e fitando agora firme o Serafim, inquiria, com um significativo ar, quando na frente lhe punha, sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas, o tacho fumegante: - Vens-lhe com gana hoje?...
- Mas gana de quê?... - logo repontou o Serafim, enviesando malevolamente os olhos.
- Ora de que há-de ser?... De tasquinhar. E ainda bem!
Dizendo, a ladina da Clara rodopiava ligeira na acanhado aposento, descendo do armário e dispondo na mesa dois pratos de barro, singelamente vidrados a branco e sua franja de azul nos bordos, depois colheres e garfos de chumbo, pão, um pires esbeiçado com azeitonas. E então, com o mesmo ar finório, as costas da mão sobre a mesa: 
- A não ser que tu... sim... lá tenhas outro sentido. - A cara patibular do Serafim torcia-se num sorrisinho implicante. E a mulher a insistir: - Não sei o que te acho! Estás-me assim a modo campeiro...
- E tu estás muito doutora...
- Cada um é como Deus o fez...
- Senta-te! - gritou com ímpeto o Serafim, fuzilando-lhe um relâmpago de cólera na abaçanada frouxidão dos olhos. E arrastou ainda, numa sorna de ameaça: - Nós temos festa... - Depois imperiosamente a repetir: - Então!?
Ao que a mulherita prontamente obedeceu, trazendo cadeira para junto do seu homem, e dando-lhe ao sentar-se um amorável repelão no braço: - Mostrengo!
Mas, insensível, o Serafim lançava do tacho para o prato e sorvia automaticamente, sem vontade, sem prazer, uma negra e triste aguadilha, mosqueada de olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor nauseabundo, e de cuja dessorada fluidez a quando e quando emergia a ironia cortical dum feijão, ou a coriácea insipidez dalguma couve saloia. De sua banda a Clara imitava-o, atacando também, mas de longe, como quem se despacha duma fastidiosa obrigação, o sujo tacho requeimado; e para isto estendia o braço direito, todo longo, e sobre o antebraço esquerdo em repouso tinha o avental colhido no regaço.

"Amanhã", Abel Botelho

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

domingo, 22 de setembro de 2013

Amem em vez de amém, disse o Papa aos padres

Disse o Papa: "Proclamar o amor redentor de Deus é um dever prioritário, antes do dever moral e religioso. Mas hoje parece que muitas vezes acontece o contrário". Pois parece. Francisco falava da missão dos ministros da Igreja e eu gostei. Era um raspanete ao pessoal, mais um. E gostei também que viesse nos jornais. Estou farto de dizer a mesma coisa, mas a mim ninguém me liga.
No fundo, o Papa apela aos cardeais, bispos e padres para que metam na devida ordem as suas próprias urgências pastorais, para que se organizem em bondade e misericórdia, para que (re)aprendam a distinguir o essencial do acessório, para que se deixem de cinismos. O Papa acorda-os para o mundo e para Deus. Pede-lhes que sobretudo amem - tão simples como isto.
O Papa quer que os cardeais, bispos e padres saiam das suas zonas de conforto, das cadeirinhas de fiscais de consciências e julgadores de comportamentos e práticas onde boloram há que séculos. E que amem o próximo, como foram ensinados a pregar aos outros. Mas podem ficar descansadas as almas mais conservadoras e sacristas. As palavras de Francisco não são senha para a revolução. Parecem-me até declarações retrógradas, reaccionárias sem sombra de dúvida: devolvem-nos ao princípio, aproximam-nos de Deus - que é Amor -, mandam-nos de volta ao que Jesus nos ensinou.

sábado, 21 de setembro de 2013

Lugares-comuns 95

Foto Hernâni Von Doellinger

Herberto Sales

Começaram a entrar na gruna.
Um bafo de umidade retida os envolve. Filó vai na frente, seguido de perto por Joaquim Boca-de-Virgem e Neo. Seguram a candeia com uma das mãos, e com a outra amparam o corpo para não rolarem pelo lajedo. Agora já é preciso curvarem a cabeça, porque a gruna se torna cada vez mais baixa. Filó é o rompedor. Sua candeia alumia o caminho difícil. Dela se desprende uma fumaça densa, o cheiro do azeite se misturando ao do limo que cobre as pedras. O ar se faz mais pesado, como que palpável. Entre o teto e o chão há apenas uma fenda, como se o caminho tivesse terminado ali. Mas é necessário avançar mais - e Filó avança, agachando-se, a princípio, para logo se estirar de comprido sobre a laje. Se aparecer de súbito uma cobra, uma cabeça-de-patrona ou uma jaracuçu, cuja picada "quando não mata, aleija", ele fará o que todo gruneiro tem obrigação de fazer - de saber fazer. Procurará encandear os olhos da cobra com a luz da candeia, até poder pegá-la pela cabeça com mão firme, esmagando-a contra a pedra. Não há outra saída. Atrás dele, também de rastos, vêm os demais companheiros, com o rosto a um palmo de distância da planta dos pés uns dos outros, formando a fieira por meio da qual se farão chegar os sacos de cascalho à boca da gruna. Os sacos são de algodãozinho, e de pequenas dimensões, porque de outro modo não seria possível movimentarem-se com eles ali. No serviço de gruna, o garimpeiro é obrigado a abolir o carumbé comumente usado para o transporte de cascalho. Filó sabe que, se não pode recuar, em virtude de estarem atrás dele os outros, também não lhe é possível avançar com rapidez: seu peito e suas costas se roçam nas pedras. Vai empurrando a trouxa de sacos e os frincheiros, e calcula já ter avançado uns trinta metros pela gruna adentro. É noite, mas ainda que fosse dia a escuridão da gruna seria a mesma: é qualquer coisa sempre igual, como a eternidade.

"Cascalho", Herberto Sales

(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)

Hoje é Dia do Porto de Leixões

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Palavras, palavras, palavras

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem: antigamente davam-se beijos, davam-se abraços; agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Dizemos. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua. Dar é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um beijo", "Desejo-lhe um excelente abraço".
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.

Lugares-comuns 94

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 17 de setembro de 2013

José Régio

Soneto de amor
  
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce.


José Régio

(José Maria dos Reis Pereira, conhecido como José Régio, nasceu no dia 17 de Setembro de 1901. Morreu em 1969.)

À pesca

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ele há lendas e lêndeas

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Faço ideia: levar à cena a "recriação histórica" de uma lenda deve ser obra desenganada. Porque a lenda, até prova em contrário, conta um acontecimento que nunca aconteceu. Não existiu. E, no entanto, por ser "histórica", a "recriação" implica que ela seja contada rigorosamente tal qual não foi. Estão a ver a real impossibilidade da empreitada?
Pois bem. Durante três dias, a lenda de Caio Carpo foi pormenorizadamente representada no areal da Praia de Matosinhos. A lenda de Caio Carpo é do tempo dos romanos. E eu fiquei a saber que os romanos que por cá andaram eram muito gaiteiros e tamborileiros, tinham WC, electricidade e altifalantes. Foram eles também que inventaram as feiras medievais e ainda nem se suspeitava que ia haver Idade Média.
Aqui que ninguém nos ouve, a lenda de Caio Carpo é um bocado barulhenta, isso é. Mas justifica-se a fanfarrice: prevista e anulada pela Câmara em 2009, por causa da "crise económica", a "recriação histórica" agora erguida é o sinal luminoso de que, pelo menos em Matosinhos, as vacas gordas estão de volta a Portugal.
A esta hora, lá em baixo desfazem-se as tendas. Tenho pena. Na época do Império, Roma marcava no seu calendário 175 dias de jogos e festividades por ano. Pão e circo para o povo. Matosinhos também merecia mais.

Lendas, contava-as bem a minha avó de Basto. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das lendas da minha avó Emília foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele  famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das lendas da minha avó. E o vinhinho aquecido com uma maçã assada lá dentro também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó. E a bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, não havia dúvidas. Ainda por cima, as lendas da minha avó eram verdadeiras.

A ver navios 11

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 15 de setembro de 2013

Bocage

Bojudo fradalhão de larga venta

Bojudo fradalhão de larga venta,
abismo imundo de tabaco esturro,
doutor na asneira, na ciência burro,
com barba hirsuta, que no peito assenta:

No púlpito um domingo se apresenta;
prega nas grades espantoso murro;
e acalmado do povo o grão sussurro
o dique das asneiras arrebenta.

Quatro putas mofavam de seus brados
não querendo que gritasse contra as modas
um pecador dos mais desaforados.

"Não (diz uma), tu padre não me engodas;
sempre me há-de lembrar por meus pecados
a noite em que me deste nove fodas!"

"Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas", Bocage

(Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu no dia 15 de Setembro de 1765. Morreu em 1805.)

sábado, 14 de setembro de 2013

O fotógrafo Gaspar de Jesus e a Afurada

                                                                                             Foto GASPAR DE JESUS

A exposição "Um olhar sobre a Afurada", do fotojornalista e artista fotógrafo Gaspar de Jesus, continua patente ao público até 31 de Novembro e recomenda-se. A ver: no Centro Interpretativo do Património da Afurada, Vila Nova de Gaia, todos os dias, das 10 às 12h30 e das 13h30 às 18 horas.

A receita

- Passa-me a receita, se faz favor?
- Mas com certeza, ora tome lá.
- Hummm... precisava de mais um bocadinho de açúcar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A praia a quem a trabalha

Foto Hernâni Von Doellinger

Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


"Sonetos Românticos", Natália Correia

(Natália Correia nasceu no dia 13 de Setembro de 1923. Morreu em 1993.)

Vida de cão 10

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Andam lendas pela praia


Sexta, sábado e domingo. A Praia de Matosinhos será palco da "recriação histórica" da lenda de Caio Carpo. Mais informação e programa, aqui.

Bienal, como o próprio nome indica

Era a melhor das intenções. Na sua voz maviosa, a locutora da rádio fazia o elogio e o convite à visita à Bienal de Cerveira - "há 17 anos" a levar ao Alto Minho a nata da arte plástica nacional e internacional. Pois. Dezassete anos, contas bem feitas, porque este ano é a décima sétima edição do evento e portanto não há que enganar. A locutora da voz maviosa (já disse que a voz era maviosa, não já?) ignora que a Bienal de Cerveira começou em 1978 - há 35 anos, assim é que está certo - e que as bienais, como o próprio nome indica, realizam-se de dois em dois anos. Mas isso são pormenores.
Perdoo a ignorância da locutora. Eu próprio já escrevi que Vila Nova de Cerveira perde muito por não fazer a Bienal todos os anos. Mas era uma laracha das minhas: tenho a mania da piada fina, não falo na rádio e raramente falo a sério. Perdoo a locutora por causa da sua voz definitivamente maviosa, minha companhia pelos nevoeiros matinais do Parque da Cidade, e porque a seguir ela me deu "Purple Rain", versão Urselle. Claro que era muito melhor o extraordinário original de Prince, mas se calhar não é suficientemente smooth.

P.S. - A 17.ª Bienal de Cerveira tem portas abertas até ao próximo sábado, 14 de Setembro. Restam quatro dias para aproveitar.

Vida de cão 8

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Nicolau Tolentino

Deitando um cavalo à margem

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,

Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

- "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome".


"Obras Completas", Nicolau Tolentino 

(Nicolau Tolentino de Almeida nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)

A ver navios 10

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 7 de setembro de 2013

Camilo Pessanha

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho?

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?


Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
 - Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...


Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.


Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.


 "Clepsidra", Camilo Pessanha 

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

À babuge

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O meu relógio é um bocado estúpido

Notícia extraordinária. A Samsung apresentou em Berlim "um relógio inteligente" que permite ler e-mails, ouvir música, tirar fotografias e atender chamadas. E dá horas. Os outros relógios são obviamente estúpidos.
Por outro lado, a Samsung acaba de inventar o telemóvel.

Pedro Homem de Mello

Desafio 

A Pátria está à venda?
Pois bem. Comprá-la-ei
(Não há quem a defenda?)
(Mataram-nos o Rei!)
Comprá-la-ei com tudo
O que me venha à mão
Com a noite e o veludo
Da minha solidão.
Comprá-la-ei na Igreja
Onde fui baptizado
(Junto à Pia rasteja
A cobra do pecado...)
Com meu copo sem vinho
Minha mesa sem pão
Comprá-la-ei sozinho
Com o meu coração
Comprá-la-ei rezando
Nem que me falte a voz
Até quando? - Até quando
Ninguém zombe de nós.
Comprá-la-ei na cama.
Comprá-la-ei na rua
Onde às vezes me chama
A tentação mais crua
Com toda a minha dança
Minha anormalidade
Com a minha esperança
Com a minha saudade
E preso ao meu país
Comprá-la-ei dizendo
Que sou muito infeliz
Porém que me não vendo!

"Poemas Roubados", Pedro Homem de Mello

(Pedro Homem de Mello nasceu no dia 6 de Setembro de 1904. Morreu em 1984.)

Navio-fantasma

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A morte de +1 bombeiro

Não é trágico que a morte de um bombeiro tenha passado a ser a "morte de mais um bombeiro"? Nas notícias. Nos jornais, nas televisões, nas rádios: acabei de ouvir agora mesmo na rádio pública. Foi mais um, paciência, que se há-de fazer, não é? Heróis de nome próprio são os directores dos bancos que nos puseram a comer merda. O sacrifício da vida pela vida dos outros reduz-se a um algarismo menor e cínico. Ainda por cima, repetitivo.
- Bota aí +1 no Excel - mandou o chefe da secção de Normalidade & Condolências. O filhadaputismo está a tomar conta de nós todos e, por este andar, não sei se merecemos a salvação.

De nenúfar em nenúfar (como os elefantes) 2

Foto Hernâni Von Doellinger

A realidade é inexorável, sobretudo se for fresca

- Mais vale tarde que nunca - disse o pragmático. Já passava do meio-dia e não havia volta a dar.

domingo, 1 de setembro de 2013

Super-Batata

                                         Foto Hernâni Von Doellinger

De tanga

Quando eu era pequeno queria ser grande. E quando fosse grande queria ser palhaço, maquinista de comboio, famoso, padre, polícia à paisana, pianista, advogado, jornalista, actor, bombeiro, jogador de futebol, tarzan, presidente da república, terrorista, papa, escritor, herói, cantor, ciclista, santo e piloto de caça. Já há muito que sou grande e, francamente, sou tarzan e é um pau.

P.S. - Texto escrito e publicado em 17 de Dezembro de 2011. Repito-o hoje para lembrar Edgar Rice Burroughs, que nasceu no dia 1 de Setembro de 1875 e morreu em 1950. Pelo meio inventou o Tarzan.