quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Carlos Drummond de Andrade

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


"Sentimento do Mundo", Carlos Drummond de Andrade

(Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de Outubro de 1902. Morreu em 1987.)

Fafe visto do céu 5

                                                         Foto SKY PHOTO/PORTUGAL DE LÉS-A-LÉS

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A ponte é uma passagem

Foto Hernâni Von Doellinger

Por acaso, hoje em dia até nem é. Uma avaria na Ponte Móvel de Leixões tem impedido a normal circulação de peões e automóveis entre Matosinhos e Leça da Palmeira, ironicamente as duas novas faces de uma freguesia só. Azar do caraças num momento tão politicamente incorrecto. Diagnóstico: problemas de rótula com implicações ao nível tibiotársico. A Câmara está a fazer o que pode e a APDL diz que também. São coisas que acontecem. Prognóstico: daqui a dois meses, se não chover, tudo estará resolvido. Mas é a nossa sina: se calhar chove... e a ponte é uma miragem.

Lugares-comuns 104

Foto Hernâni Von Doellinger

Os cães passam mas a caravana ladra

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Em cada casa, dois cães, quatro gatos e um filho
Dentro de ti, ó cidade
À sombra duma azinheira.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Fafe visto do céu 4

Foto SKY PHOTO/PORTUGAL DE LÉS-A-LÉS

Adalgisa Nery

Pensamentos que reúnem um tema

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.

"Mundos Oscilantes - Poesias Completas", Adalgisa Nery

(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tomada de posse da nova Câmara de Fafe

Foto Hernâni Von Doellinger

A nova Câmara Municipal de Fafe, que passará a ser presidida por Raul Cunha, toma posse no próximo sábado, dia 2 de Novembro. Cerimónia no Salão Nobre dos Paços do Concelho, pelas 17 horas.

Lugares-comuns 103

Foto Hernâni Von Doellinger

Vianna Moog

Os mosquitos continuam o seu coro. O vento amainou. A chuva começa a cair. Geraldo já não ouve a trovoada do bolão. A chuva bate nas vidraças. Ele se lembra que desejara a chuva, intensamente. Vieram-lhe à memória os pardais. Eles talvez grasnavam para que o canto dos artistas não os humilhasse. Tinham também entre si compromissos de sangue. Lembrou-se ainda da estátua coberta de incrustações de pardais. Talvez aquela chuva lavasse a estátua. Não, não lavava. Precisava uma chuva mais forte, uma rajada de água. Aquela era muito fraca. Batia de mansinho na vidraça. Apenas descarregava a eletricidade da atmosfera. Ele já podia respirar mais aliviado. Pensava em Lore. Ela lhe ocupava quase todo o campo do pensamento. Agitava-se contra um fundo confuso e móvel: florestas tropicais, o rio imenso, vultos esfumados.
A madrugada encontrou-o perdido no meio de seus fantasmas. E, embalado ao ritmo morno desses pensamentos, Geraldo adormeceu.

"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog

(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)

domingo, 27 de outubro de 2013

O mostrengo que está no fim do mar

Foto Hernâni Von Doellinger

O homem que sabia uma coisa terminada em "ia"

José Policarpo sabia de uma coisa terminada em "ia". Pedofilia?, perguntaram-lhe logo. Não, de pedofilia não sei nada, respondeu. Compaixão?, insistiram. Vão-se lixar, isso não interessa para nada e nem sequer termina em "ia", protestou o príncipe da Igreja na reforma. Economia, sei é de economia, acabou por se abrir o emérito, parece que um tudo nada afrontado com a maneira leviana como sindicatos e oposição estão a governar Portugal. Ou então seriam gases.

Fafe visto do céu 3

Foto SKY PHOTO/PORTUGAL DE LÉS-A-LÉS

Quem se leva a sério é tolo

Gosto de brincar com os nomes. Gosto de me rir. E às vezes rio-me com os nomes que me vêm à cabeça. Por exemplo: Sam Dwich, Poly Ban, Sade Miranda ou Tony Truante.
Assino agá pequenino ponto, porque sei o meu lugar. Mas também porque a seguir ao agá pequenino ponto viria um apelido que só arma confusões. O meu sonho, um dos meus mais de mil sonhos, era chamar-me e poder assinar H. Ramos.
Melhores cumprimentos,
h.

Fafe visto do céu 2

Foto SKY PHOTO/PORTUGAL DE LÉS-A-LÉS

Graciliano Ramos

- Quer ouvir o meu projeto? segredou o menino sardento.
- Ah! sim. Ia-me esquecendo. Acabe depressa.
- Eu vou principiar. Olhe a minha cara. Está cheia de manchas, não está?
- Para dizer a verdade, está.
- É feia demais assim?
- Não é muito bonita não.
- Também acho. Nem feia nem bonita.
- Vá lá. Nem feia nem bonita. É uma cara.
- É. Uma cara assim assim. Tenho visto nas poças d’água. O meu projeto é este: podíamos obrigar toda a gente a ter manchas no rosto. Não ficava bom?
- Para quê?
- Ficava mais certo, ficava tudo igual.
Raimundo parou sob um disco de vitrola, recordou os garotos que mangavam dele.

A cigarra lá de cima interrompeu a cantiga, estirou a cabecinha. Era uma cigarra gorda e tinha um olho preto, outro azul.
- Qual é a sua opinião? Perguntou o sardento.
Raimundo hesitou um minuto:
- Não sei não. Eles bolem com você por causa de sua cara pintada?
- Não bolem. São muito boas pessoas. Mas se tivessem manchas no rosto, seriam melhores.
A aranha vermelha deu um balanço no fio e chegou ao disco da vitrola:
- Que história é aquela?
- Palavreado à-toa, explicou a dona da casa.
- À-toa nada! bradou o sardento. Cigarra e aranha não têm voto. Cada macaco no seu galho. Isto é assunto que interessa exclusivamente aos meninos.
- Eu aqui represento a indústria de tecidos, replicou a aranha arregalando o olho preto e cerrando o azul.
- E eu sou artista, acrescentou a cigarra. Palavreado à-toa.
Raimundo esfregou as mãos, constrangido, olhou os discos e as teias coloridas que se agitavam.
- Parece que elas têm direito de opinar. São importantes, são umas bichonas.
- Direito de dizer besteira! Resmungou o sardento.
- Não senhor. A cigarra tem razão. Palavreado à-toa.
- Então você acha o meu projeto ruim?
- Para falar com franqueza, eu acho. Não presta não. Como é que você vai pintar esses meninos todos?
- Ficava mais certo.
- Ficava nada! Eles não deixam.
- Era bom que fosse tudo igual.
- Não senhor, que a gente não é rapadura. Eles não gostam de você? Gostam. Não gostam do anão, de Fringo? Está aí. Em Cambará não é assim: aborrecem-me por causa da minha cabeça pelada e dos meus olhos. Tinha graça que o anão quisesse reduzir os outros ao tamanho dele. Como havia de ser?
- Eu sei lá! rosnou o sardento amuado. O caso de anão é diferente. Parece que ninguém me entende. Vamos procurar os outros?

"A Terra dos Meninos Pelados", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

sábado, 26 de outubro de 2013

Fafe visto do céu

                                                        Foto SKY PHOTO/PORTUGAL DE LÉS-A-LÉS

Murilo Araújo

Canção da lua que lava

Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;


lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;


oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!


lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar -
nos terraços lajeados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar -


lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar -


vem, lua, e lava minha alma!


Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.


Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

Na Flor do Gás para a Afurada

                                                                                         Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Fafe em 360 graus

O centro de Fafe visto do céu, numa espectacular viagem panorâmica de 360 graus. Belíssimo. O desgosto às vezes é quando se olha de perto. Carregue aqui e delicie-se.

Segue-se um texto entre o "mediúcre" e medíocre

Falava-se de cogumelos à porta do café. Os montes da zona são dados à fungaria, apanhada por quem quer e vendida por bom preço. Faz jeito o livre empreendedorismo: por falar em cogumelos, a rapaziada da terra fuma por ali umas coisas todas bem dispostas que também não devem ser nada baratas. Uma mão lava a outra, é a vida.
À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume, faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do coiso passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta diz aí em baixo "mediúcre" então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe uma oportunidade.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres. Então era isso. Medíocre.

Campanhã blues

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ramalho Ortigão

Assim como, libertado de reis, ele não quer mais ser escravo senão de charlatães, assim também, uma vez descarregado do sofisma divino e precisando de algum outro símbolo a que se apegar, encomenda-se devotadamente ao acaso, ao desconhecido, ao inescrutável, e filia-se na política, bajula o cacique e compra cautelas de três vinténs.
Insanavelmente beato pelas fatalidades atávicas da sua raça, sente a necessidade espiritual de iniciar-se nalgum mistério que substitua o dogma e pede então à maçonaria um novo pão eucarístico e um cerimonial litúrgico parecido com o baptismo, com a primeira comunhão e com a crisma. E a sua alma de cândido neófito exulta com a posse dos variados sacramentos dessa religião nova, a que ele será tão fiel como foi à antiga, seguindo-lhe os preceitos e os ritos com a mesma compenetrada unção com que outrora ia à missa, ao sermão e à desobriga.
Quando ninguém precisa da cooperação da sua força chamam-lhe Zé Povinho, figurando-o com uma albarda às costas, e é o lobo manso de quem todos mofam. Quando aos filósofos em desinteligência convém açulá-lo, chamam-lhe o Povo Soberano, omnipotente e absoluto.
Por sua parte, ele acha-se no seio da civilização que o explora como o touro em tarde de corrida no meio do redondel. É puro, bravo, boiante e claro. Está aí para o que quiser dele o capinha, o bandarilheiro e o espada. Acenem-lhe com o trapo encarnado e ele arrancará sempre com lealdade e braveza, entrando pelo seu terreno, acudindo ao engano e indo ao castigo de todas as vezes que o citem para atacar, para escornar, para estripar e afinal para morrer, o que tudo para ele é unicamente marrar.


"As Farpas II", Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

Lugares-comuns 102

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Siga para bingo

O Tribunal Constitucional confirmou hoje o PS como vencedor das eleições para a Câmara de Fafe, com 17 votos de vantagem sobre os Independentes, que protestavam os resultados. Raul Cunha, presidente eleito, deverá tomar posse na primeira semana de Novembro.

As castanhas são como o próprio nome indica

                                                            Foto Hernâni Von Doellinger

As castanhas. As castanhas têm pouco que se lhes diga. Chamam-se castanhas por causa da própria cor, acho eu, e estão a dois euros se forem 15 e a cinco euros se forem 40 - preços à saída do assador. As castanhas fazem-me gases e há cinco qualidades de castanhas: castanhas cruas, que sabem a infância e a dor de barriga, castanhas cozidas, que precisam de saber a funcho, castanhas piladas, que são uma pouca-vergonha, castanhas assadas, que são quentes e boas, e castanhas com bicho, que são uma merda. No Verão, as castanhas são tremoços.
As castanhas vêm dos ouriços, que antigamente tinham a mania de cair em cima das cabeças das pessoas. Os ouriços de Fafe eram os piores. Havia um castanheiro nas traseiras do tasco do senhor Augusto Paredes, encostado ao muro, mesmo em frente ao Palacete, e os ouriços caíam na rua como tordos. Mas esperavam por mim, matreiros e organizados, para me desabarem aos pares ou num indecente mènage à trois mesmo em cheio no cocuruto. E eu sem capacete. Era um cristo.
Para além dos filhos da puta dos ouriços e das castanhas que servem para a nossa alimentação, os castanheiros davam também uma tirinhas muito jeitosas para se fazerem grinaldas e óculos de brincar. Os castanheiros podem ter mais de mil anos, mas o do quintal do Paredes não. O quintal do Paredes era também o quintal do senhor Jerónimo Barbeiro e do senhor Lopes Agulheiro. O castanheiro do Paredes agora é um prédio de rés-do-chão e quatro andares. Mesmo em frente, centenário e ainda elegante e digno, agora é o Palacete que cai. Cai aos bocados, desgostoso com o abandono e a ignorância adjacente.
Derivado às castanhas existem também as castanhadas e as castanholas. As castanhadas quem as sabe explicar melhor é o Luisão do Benfica. E as castanholas fazem um papelão nas mãos de Lucero Tena.
Eu gosto muito de castanhas. E afinal as castanhas têm bastante que se lhes diga.

(Escrevi e publiquei este texto no dia 21 de Novembro de 2012. Repito-o hoje, porque estamos no tempo e para alimentar uma certa curiosidade fafense que de repente tropeçou neste pobre blogue. Se queriam mais "política", tomem lá castanhas. E façam-me um favor, que são dois: ouçam a Lucero Tena e não deixem morrer as nossas bandas.)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

As eleições autárquicas tais quais elas são

A propósito da balda que são as eleições em Portugal, muito particularmente as eleições autárquicas, escrevi e publiquei este texto no dia 17 de Janeiro de 2013, então com o título No fim dá tudo certo:

Eu, o Presidente da República e o presidente da Anafre estamos muito preocupados com o chamado processo de reorganização do território. Eu, por razões egoístas; Cavaco Silva e Armando Vieira, porque faz parte. As minhas razões são tão egoístas que ficam cá comigo. Vamos, portanto, às alegadas razões dos outros dois:
Primeiro Cavaco, o do "promulgo, mas" - que é só para o que lhe dá ultimamente. A esfinge de Belém parece que diz que teme que o novo mapa das freguesias, assim de repente, possa estragar a "autenticidade" dos resultados das eleições de Outubro e pede ao Parlamento que tome todas as medidas (duas antes de cada refeição, até ao fim da caixa) para assegurar que as autárquicas decorrem com "transparência" e "normalidade".

E depois Vieira, sem mais nada a que se agarrar, aproveita a boleia e acrescenta que a lei agora promulgada pode pôr em causa tarefas como o recenseamento eleitoral ou a disponibilização de espaços e urnas no dia das eleições.
De que país falam Cavaco Silva e António Vieira? E de que eleições? É de Portugal? É das autárquicas? Das eleições nas freguesias? É?
Então podem ficar descansados. Cavaco não sabe, porque não faz a mínima ideia do que se passa no País, mas Vieira devia saber e se calhar sabe: as eleições autárquicas correm sempre bem, quer chova quer faça sol. O mapa não interessa para nada, a logística é um pormenor, as chapeladas são as do costume. Bebem-se uns copos à boca das urnas e nas urnas propriamente ditas, faz-se uma almoçarada com o pessoal de serviço de todos os partidos, que são o PPD e o "da mãozinha" mais o gajo do PC que vem de fora e é um picuinhas. O pai vota pelo filho que é tolinho, o filho vota pelo pai que já morreu, pai e filho votam pela avó que está muito atacadinha e não pôde vir, e depois a avó vem e vota também. Há quem vote em dois lados, há quem vote duas ou três vezes no mesmo lado, há quem vote nos dois partidos, e vale, há quem vote em quantas freguesias for preciso, é só dizer, há quem queira e possa votar e não deixam, há quem se faça de ambulância, há quem se faça de parvo, há quem chame a polícia, há quem chame pelo gregório agarrado ao garrafão levado pelo presidente da mesa a mando do presidente da junta. Chegada a hora das contas, vai-se aos cadernos e à acta, acrescenta-se aqui, desarrisca-se ali, rasgam-se uns papéis, queimam-se, noves fora nada, o chato do PC também assina, e no fim bate tudo certo. Podem crer: bate tudo certo. E isto, meus senhores, é que é democracia. Autêntica, transparente, normal.

O detalhe das trapalhadas pode parecer uma caricatura, mas não é ficção. Tudo isto aconteceu. Tudo isto acontece. As eleições em Portugal são um maná de anedotas. Para mim, que gosto de uma boa piada, a melhor de todas soube-a agora de Fafe, na recontagem de votos ordenada pelo Tribunal Constitucional. Leio no jornal que "duas professoras de Matemática" foram chamadas para tomarem nota dos pauzinhos de cada força política concorrente e fazerem os respectivos noves fora. Porque cada voto é um pauzinho, não é? Duas professoras de Matemática, que não têm culpa, e há-de ser de lei, parabéns à prima. Mas é também um atestado de incompetência passado aos "escrutinadores" paisanos enviados para as urnas pelos chefes políticos. E, por amor de Deus, uma desonra para os milhares de suequeiros fafenses, professores doutores na arte do um dois três quatro ata, um dois três quatro ata. Os chitos são outro assunto, e parece que já foi tempo...

sábado, 19 de outubro de 2013

Esmiuçando as pândegas eleições de Fafe

                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Fafe deve estar uma terra muita perigosa. Percebe-se o medo que as pessoas têm de porem o nome nas pedras que atiram. E atiram muito e à seja ceguinho. O Café Avenida já não é o que era, do Peludo do pé rapado resta o sítio, parece que já não há cavaqueiras, tertúlias, conspirações da velha escola, coragem e honradez. Em Cima da Arcada dar-se-ão com certeza uns peidos valentes, mas pela boca ninguém diz o que pensa. Diz-se mal na Internet, é a modernidade, mas sob anonimato. A opinião política fafense é maneta. Já nem é caso de se atirar a pedra e esconder a mão. Não há mão: os insultos sem assinatura são geralmente tão palermas que só podem ter sido arremessados pelas orelhas. E os "anónimos" escrevem e dizem "eu". Eu, quem? Afinal não é medo, é cobardia.
Mas há uma parte nisto que eu compreendo: em localidades assim pequenas jogam-se muitos empregos quando há eleições. Há quem meta a viola no saco com receio de perder a mama e, nas hostes em frente, outros ficam caladinhos como ratos a ver se desta vez é que lhes calha a abébia. Nunca se sabe para que lado é que a coisa vai cair, não é? Isto passa-se em Fafe, que eu bem vejo, até os donos de blogues habitualmente tão politicamente interventivos fecharam para obras, porque deus e o diabo existe quem creia que sejam a mesma coisa. Ficou o silêncio. O tabu. E deus e o diabo não são a mesma coisa, é preciso que se note.
Portanto vou eu falar do assunto. Chamo-me Hernâni Von Doellinger, sou Bomba, número de identificação civil 03629731 e número de contribuinte 101363109. Estou à vontade. Sou fafense mas não moro em Fafe e tenho seis empregos, cada um deles a render-me acima dos dois mil euros e todos sem possibilidade legal de cortes, o que me garante uma independência e um desafogo financeiro que tomaram muitos. Mesmo os que foram apenas depositantes do BPN.
E vamos falar primeiro dos candidatos à presidência da Câmara, que, se não me engano, eram apenas três: o médico da minha mãe, o filho do Dr. Parcídio e o filho da Nicinha. Os três juntos estão tão preparados para o cargo como eu estou pronto para ser solista de trombone de varas na Filarmónica de Berlim. Entenda-se: isto dos presidentes de câmara e dos solistas de trombone de varas é como os melões - depois de aberto, um dos outros três até pode vir a dar alguma coisa, eu é que não. Eu só sei tocar campainhas de porta.
Dia 29 de Setembro: a eleição resultou praticamente num empate. E deu merda. Deu merda principalmente por causa dos marretas que as forças políticas concorrentes mandaram para as mesas de voto com ordens expressas para tratarem da respectiva trafulhice, cada qual para tratar da trafulhice dos seus, e com o dia pago. Trafulhice? Bagatelas, pequenos truques de ilusionismo, alguns até bastante ingénuos, e que geralmente acabam por anular-se entre si e não dão caso. Deram desta vez. Ignoro se houve má-fé, sei que houve incompetência. São todos culpados, e, antes de todos, os capos atrás dos candidatos de carregar pela boca. Quem não tem culpa é o povo, que está à espera de um presidente de câmara que não há meio de se apresentar ao serviço.
A eleição caiu para o PS. Os Independentes recorreram e estão no seu direito. A margem de vitória é tão mínima, as trapalhadas em eleições, sobretudo nas autárquicas, são tantas, que se impõe uma aclaração. As recontagens de votos, as repetições de eleições estão previstas, fazem parte do jogo político. Não é secretaria, é democracia. Imaginem o que não se estaria a passar em Fafe se o PS tivesse perdido por 17 votos...

Acompanho Fafe sobretudo daqui, deste teclado. Admito que não seja o melhor ponto de observação, mas creio que sei da vida e da política o suficiente para perceber razoavelmente o que se passa na minha terra. Se me provarem que não, amocho, que remédio. Hoje fico-me por aqui. Mas espero voltar proximamente ao assunto, uma, duas ou três vezes, se calhar mais, ainda não sei. Se lhes interessa, conto falar, com algum pormenor, sobre os três estarolas desta eleição - repito, o médico da minha mãe, o filho do Dr. Parcídio e o filho da Nicinha - e até vou indicar o meu candidato para as autárquicas de daqui a quatro anos. Se então ainda houver Portugal.

Estou mesmo a ver o filme 9

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Vinicius de Moraes

Velhice

Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmuIo
E todas as idéias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a idéia do testamento bem escrito.
Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.

O eterno velho que nada é, nada vale, nada teve
O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.


"O Caminho para a Distância", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Há cem anos. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O melhor amigo 2

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pifarista encantador de serpentes, precisa-se

Foto Hernâni Von Doellinger

Guimarães, num jardim-quintal da nobre Avenida Dom Afonso Henriques. Provavelmente uma instalação que ficou esquecida da Capital Europeia da Cultura 2012.

António Ramos Rosa 2

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.

É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.

Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.

No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


"Volante Verde", António Ramos Rosa

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu nem há um mês.)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Baralhar e dar de novo

Foto Hernâni Von Doellinger

As eleições para a Câmara de Fafe vão voltar ao Tribunal Constitucional (TC). A lista de Independentes continua a ter dúvidas em relação a uma série de votos que, de acordo com Parcídio Summavielle pai, "podem alterar o vencedor".
Na sequência do acto eleitoral de 29 de Setembro, o PS celebrou a vitória, com 20 votos de vantagem em relação aos Independentes por Fafe, mas estes recorreram para o TC, face às irregularidades que dizem ter detectado. O Tribunal ordenou a recontagem dos votos em 12 secções, um processo que decorreu desde o início da manhã de ontem até cerca das 2h30 de hoje. Após interrupção devido ao adiantado da hora, os trabalhos serão retomados dentro de minutos, às 9h30, para apuramento geral e elaboração da respectiva acta.
"Pelos nossos números, que, para já, são apenas oficiosos, a diferença em relação ao PS terá baixado de 20 para 17 votos", referiu Parcídio Summavielle, mandatário dos Independentes por Fafe, em declarações à Agência Lusa. Os Independentes vão protestar junto do Constitucional 15 votos que foram anulados ou validados a favor do PS. Além disso, vão ainda reclamar pela alegada inexistência de "uns 50 a 60" boletins de votos nulos.

Teatro Jordão, da pornografia à morte lenta

                                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Riscado da lista de pagamentos da Capital Europeia da Cultura 2012, o Teatro Jordão está para ali, com todo o aspecto de abandonado e esquecido, a um mês de fazer 75 anos. É mais uma triste metáfora do desgraçado país que somos. Já li sobre reabilitações, orquestras sinfónicas, bandas, academias, artes dramáticas e visuais, universidades, estudos, anteprojectos, projectos - e nada. Tretas e mais metáforas. Havia umas obras marcadas para terem início em 2013 e eu não sei porquê mas não acredito nelas. Já não há metáforas que aguentem. Não sei o que Guimarães pensa ao certo do caso, mas a mim parece-me que o azar do Jordão é a vizinhança: o mau-olhado do Centro Cultural Vila Flor que lhe fica resvés e come tudo, tudo, tudo, como o Sebastião da cantiga.
Também não sei o que o Teatro Jordão significa realmente para os vimaranenses e se a cidade reivindica a preservação física da velha sala de espectáculos. Sei o que o Jordão significa para mim, mas a minha memória vai para além das pedras. A casa pode vir abaixo, que as recordações daqui não saem.
"Chove em Santiago", o filme de Helvio Soto sobre os últimos dias do governo de Salvador Allende e o golpe militar no Chile, vi-o pela primeira vez no Jordão de casa cheia e a explodir de repente numa enorme manifestação antifascista, comício de ignição espontânea, de raiva, o pessoal de pé em cima das cadeiras, de punhos cerrados e erguidos, com uma única e cada vez mais vociferada palavra de ordem - Filhos da puta! Filhos da puta!! Filhos da puta!!!
Andávamos ainda com o fogo do 25 de Abril no rabo e ninguém nos aturava. Bons tempos aqueles, havia sonhos.
O Jordáohe, como se chama em Guimaráes, foi também o cinema dos meus primeiros filmes pornográficos. Era a novidade. A pornografia tinha chegado há pouco, com a liberdade, que afinal é sempre um pau de dois bicos. Devo esclarecer, por falar nisso, que os filmes pornográficos do Jordão faziam muito mal aos intestinos, pior do que garrafão de vinho doce bebido de uma assentada. Nos intervalos era um ver se te avias para ir à retrete, filas imensas de braguilhas aflitas à porta das sentinas, porque os urinóis para o caso não serviam.
Quando me internacionalizei, um ou dois anos depois, em França, pude verificar que com os estrangeiros, muito mais batidos na matéria, a coisa funcionava de maneira diferente. Para além de cada qual poder escolher o lugar que quisesse na sala praticamente às moscas, não era preciso esperar pelo intervalo nem ir à casa de banho. Os castiços dos franceses, toujours en avance...

Já agora: ao contrário do que muito boa gente pensa que sabe, incluindo alguns figurões com alegadas responsabilidades literárias, "Chove em Santiago", célebre verso de abertura de um belíssimo poema de Federico García Lorca, não se refere a Santiago do Chile, mas a Santiago de Compostela. À minha querida Santiago de Compostela, pela qual o poeta e dramaturgo andaluz também se enamorou.
Lorca publicou em 1935 um pequeno livro a que deu o nome de "Seis Poemas Galegos". Em galego o escreveu e o poema mais conhecido do opúsculo é exactamente este:

Madrigal á cibdá de Santiago

Chove en Santiago,
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.
 

Chove en Santiago
na noite escura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.
 

Olla a choiva po-la rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla no vento esvaído,
soma e cinza do teu mar.
 

Soma e cinza do teu mar,
Santiago, lonxe do sol;
ágoa da mañán anterga
trema no meu corazón.


Federico García Lorca

Vida de cão 15

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Manuel da Fonseca

 Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir

e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!…

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito pra enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!…
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
- Isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!…


"Poemas Dispersos", Manuel da Fonseca

(Manuel da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911. Morreu em 1993.)

Estou mesmo a ver o filme 8

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pontualmente a pontualidade não compensa

Chamavam-lhe o Atraso de Vida ou o Não Venhas Tarde, dependia se o ano era normal ou bissexto. Porque ele nunca chegava a horas a lado nenhum, fosse trabalho ou lazer. Uma vez teve a morte marcada e vejam lá: atrasou-se como de costume, apareceu vinte minutos depois. Resultado: ainda hoje aí anda.

Prò ano há mais

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 13 de outubro de 2013

Bento Morganti

Meu Amigo, e Senhor. Graças a Deos, que depois de huma enfermidade dilatada me acho restituido a estado de poder escrever a V. m. e naõ foi pequeno milagre escapar da cura, em que tive mayor perigo, do que aquelle, que me causava a molestia; pois por muito pouco que a natureza se descuidasse em me soccorrer, sem duvida entre a má applicaçaõ dos remedios perderia irremediavelmente a vida. Agora que me acho livre do susto nesta convalescença, ja que naõ posso fazer outra cousa, quero-me divertir ao menos em dizer a V. m. o de que escapei pelos enganos da Medicina, e pela ignorancia de alguns de seus professores, que ordinariamente se reputa por hum grande bem, e excellente soccorro para a conservaçaõ da vida; mas eu entendo que neste caso podemos exclamar com Seneca: Oh fallax bonum, quantum malorum fronte, quàm blanda tegis. E eu naõ sei se conseguiriamos huma melhor utilidade sem o suffragio deste chamado bem, do que com a introducçaõ deste honesto, e louvavel engano.

"Sustos da Vida nos Perigos da Cura", Bento Morganti

(Bento Morganti nasceu no dia 13 de Outubro de 1709)

Quem quiser mijar em Campanhã, paga

Foto Hernâni Von Doellinger

Quem precisar de mijar ou cagar na Estação de Campanhã tem de pagar 50 cêntimos. Cinquenta cêntimos são o que são e diz que a medida já lá está há ano e meio. Eu fiquei admirado. Fui ontem a Campanhã, estava à rasca e, porque meio euro me faz diferença, mijei cá fora contra o muro como toda a gente. Fiz na parede o tradicional desenho ide para a puta que vos pariu e saiu muito bem, não é para me gabar. Peço desculpa ao segurança que toma conta do torniquete - sim, há um torniquete e um segurança a tomar conta do tornique da retrete, mas apanhei-o distraído - e peço desculpa ao senhor e à senhora do rolo de papel higiénico que ficaram no retrato e não queriam.

E aviso o senhor Manuel Queiró, inexplicável presidente da CP: se um destes dias lhe cagarem à porta, mas cagarem com todos os matadores, não fui eu. Gostava de ter sido, até porque é tradição familiar, mas não fui. Moro em Matosinhos, não tenho dinheiro para isso. O comboio e necessidades correlativas estão pela hora da morte.

sábado, 12 de outubro de 2013

Fernando Sabino

Apesar da estrada, que ele já apanhou bastante mais movimentada e atraente, a infância de Geraldo Viramundo transcorreu como a de seus irmãos. Como seus irmãos ele comeu terra, botou lombrigas, arrebentou cupim para ver como era dentro, seguiu as formigas para ver aonde iam, misturou açúcar com sal no armazém, furtou garrafa de guaraná e depois mijou dentro botando no lugar para o pai não descobrir, brincou com fogo e mijou na cama, brincou de pegador, tic-tac carambola, este dentro e este fora, matou passarinho com bodoque, enterrou ovo choco e fez fogo em cima para ver se nascia pinto, foi mordido de marimbondo e ficou de cara inchada, amarrou lata vazia em rabo de gato, fez galinha dançar em cima de lata quente, contou com o ovo no rabo da galinha, enfiou o dedo no rabo dela, teve sarampo, catapora, caxumba e coqueluche, pegou sarna para se coçar, correu de boi bravo, botou cigarro na boca de sapo para ele fumar até rebentar, se escondeu na cesta de roupa suja para ver a irmã mais velha tomar banho, quis pegar a irmã mais nova e depois teve remorso, perdeu a virgindade numa cabrita, fugiu de casa e apanhou e por isso tornou a fugir e por isso tornou a apanhar, construiu casinhas de barro, caiu da árvore e se machucou, comeu manga com leite e adoeceu, contou as estrelas do céu e ficou com berrugas, pegou carona em caminhão, aprendeu a ler na escola, fez do travesseiro o corpo da professora, teve medo do João Carangola que fugiu da prisão e gostava de menino, assobiou e chupou cana ao mesmo tempo, fumou cigarro de chuchu, fez coleção de favas, foi à missa aos domingos, assistiu fita de Tom Mix, Buck Jones e Carlito no cineminha da cidade, apanhou bicho-de-pé, pisou em urina de cavalo e ficou com mijação, armou arapuca no mato, jogou futebol com bola de meia, teve dor de dente de noite, foi coroinha na igreja, contou quantas vezes fazia coisa feia para se lembrar na confissão, procurou não mastigar a hóstia para que não saísse sangue, fez flautinha de bambu, ficou preso pela piroca num gargalo de garrafa, molhou o pijama de noite e teve medo de estar doente, ficou com pedra na maminha e perguntou à mãe o que era, se apaixonou pela filha mais velha dos italianos do empório, tirou o cavalinho da chuva, pensou na morte da bezerra, chorou escondido, teve medo, descobriu que o céu era imenso, teve vontade de morrer, ficou acordado de madrugada ouvindo o galo cantar sem saber onde, sentiu dores nos culhões, comeu a negra Adelaide e virou homem.

"O Grande Mentecapto", Fernando Sabino

(Fernando Sabino nasceu no dia 12 de Outubro de 1923. Morreu em 2004.)

A ver navios 12

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Esperem pela pancada

Portugal tem uma taxa de desemprego oficial na ordem dos 17 por cento. Os portugueses realmente desempregados são muitos, muitos mais por cento. Mas. Diz um estudo: 65 por cento dos, vá lá, 83 por cento dos portugueses que oficialmente têm emprego estão enfadados com o trabalho. Dizem-se insatisfeitos, manifestam-se desmotivados e desligados da empresa que lhes paga, ou nem sempre. Uma chatice, uma tragédia.
As percentagens são uma armadilha. E os "estudos" são uma treta. Foram sempre uma treta desde a invenção da roda e agora que já há parafusos são também um perigo. Porém. Este "estudo" em particular, valendo zero, põe-nos lamentavelmente as partes ao léu: em tempos socialmente cataclísmicos, dias sem-vergonha em que nem os velhos nem as viúvas se salvam, há gente da nossa que não sabe dar o valor ao que ainda tem - e já nem peço o respeito por quem não tem nada.
O indesculpável Pedro Passos Coelho está a tratar do assunto destes portugueses desconsolados com o emprego. Mais dia menos dia eles estarão também no olho da rua e, finalmente, felizes da vida. É o que não lhes desejo.

Diz que está a dar futebol da televisão. A Selecção. "Tivemos" 63,3 por cento de posse de bola. Estatristicamente.

Guerra Colonial em Fafe

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

O Núcleo de Artes e Letras de Fafe realiza um curso livre de história local sobre o impacto da Guerra Colonial naquele concelho minhoto. Começa já no próximo dia 24 de Outubro e decorrerá semanalmente, às quintas-feiras, até 21 de Novembro, sempre das 18h30 às 20 horas, no auditório da Biblioteca Municipal.
No texto que serve de apresentação ao curso afirma-se que, de acordo com dados oficiais, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.
Inscrições e toda a informação, aqui.

Vida de cão 14

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tomada de posse da nova Câmara de Caminha

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

A nova Câmara Municipal de Caminha, que passará a ser presidida por Miguel Alves, toma posse no dia 18 de Outubro, sexta-feira da próxima semana. Cerimónia no Teatro Valadares, pelas 18 horas, com promessa de portas abertas à população.

Infinity... ou quase

Foto Hernâni Von Doellinger

Votos de Fafe vão ser recontados

O Tribunal Constitucional mandou recontar os votos das eleições em Fafe. Umas fontes dizem que em oito assembleias, outras dizem que em doze secções - o que também está bem e se calhar vai dar ao mesmo. O povo tem tempo, os especialistas é que sabem. E olé!

(Ler mais em Baralhar e dar de novo)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Vida de cão 13

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário de Andrade

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava: - Ai! que preguiça!... - e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva.
Vivia deitado, mas, si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo, si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.

Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que "espinho que pinica, de pequeno já traz ponta", e numa pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente.

"Macunaíma", Mário de Andrade

(Mário de Andrade nasceu no dia 9 de Outubro de 1893. Morreu em 1945.)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Lugares-comuns 101

Foto Hernâni Von Doellinger

Centro de Estudos Mário Cláudio

O escritor Mário Cláudio doou o seu espólio bibliográfico ao município de Paredes de Coura. Este arquivo, que inclui um vasto epistolário do autor da "Trilogia da Mão", ficará guardado no edifício da antiga escola primária de Venade, na freguesia de Ferreira, que foi recuperado e transformado num misto de biblioteca e centro cultural.
Cartas autografadas de relevantes figuras da cultura portuguesa e mundial, os manuscritos e as cópias dactilografadas dos inumeráveis textos de Mário Cláudio, um sem-fim de documentos fundamentais para o estudo e compreensão da sua obra em particular e da nossa literatura em geral - tudo estará lá.
O novo espaço abre portas no próximo sábado, 12 de Outubro, tomará o nome de Centro de Estudos Mário Cláudio e, entre outras valências, está preparado também para acolher alunos e investigadores que se desloquem a Paredes de Coura em busca de melhor conhecimento acerca do prolífico e premiado escritor português.
Rui Manuel Pinto Barbot Costa, identificado literariamente como Mário Cláudio, nasceu no Porto mas vive em Ferreira. A única contrapartida que terá exigido pela sua oferta foi que a Câmara Municipal de Paredes de Coura se responsabilize por organizar e dinamizar desde já e no futuro a estrutura cultural que é agora inaugurada.

O jovem ciclista em cuecas

Foto Hernâni Von Doellinger

Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, parece impossível. A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados coraram. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa, valha-me Deus.

Concerto para sousafone e megafone

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Posse da nova Câmara de Paredes de Coura

Foto Hernâni Von Doellinger

A nova Câmara Municipal de Paredes de Coura, que passará a ser presidida por Vítor Paulo Pereira, toma posse no dia 15 de Outubro, terça-feira da próxima semana. Cerimónia nos Paços do Concelho, a partir das 16 horas.

Tomada de posse da nova Câmara de Matosinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

A nova Câmara Municipal de Matosinhos, que continua a ser presidida por Guilherme Pinto, toma posse na próxima sexta-feira, dia 11 de Outubro. Cerimónia no Salão Nobre dos Paços do Concelho, a partir das 18 horas.

O minuto de silêncio

Foto Hernâni Von Doellinger

Tourada em Fafe

Campo da Granja, 1963. Uma tourada que terá sido a primeira realizada em terras de Fafe e que, se não me engano, foi a única, até hoje, com touros. O redondel não era assim tão redondo como o próprio nome poderia indicar: digamos que foi montada uma espécie de lua cheia fanada, cortada em linha recta na zona da bancada, que era para o excelentíssimo público poder estar em cima do acontecimento. Pronto. Lembram-se da bancada do Campo da Granja? Lembram-se sequer do Campo da Granja? Sabem onde era o Campo da Granja? Sabem ao menos o que era o Campo da Granja? Ai a memória...
E era isto. Se, por causa do título e da lamentável agenda política local, pensavam que era outra coisa é porque confundem as prioridades da vida. Já agora: a tourada foi uma merda. E olé!

Onde é que eu já vi este filme?

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 6 de outubro de 2013

Manuel María

Canción pra cantar todos os dias

Hai que defender o idioma como sexa:
con rabia, con furor, a metrallazos.
Hai que defender a fala en loita rexa
con tanques, avións e a puñetazos.

Hai que ser duros, peleóns, intransixentes
cos que teñen vocación de señoritos,
cos porcos desertores repelentes,
cos cabras, cos castróns e cos cabritos.

Temos que pelexar cos renegados,
cos que intentan borrar a nosa fala.

Temos que loitar cos desleigados
que desexan matala e enterrala.

Seríamos, sen fala, unhos ninguén,
unhas cantas galiñas desplumadas.
Os nosos inimigos saben ben
que as palabras vencen ás espadas.

O idioma somos nós, povo comun,
vencello que nos xungue e ten en pé,
herencia secular de cada un,
fogar no que arde acesa a nosa fe.


"Canciós do Lusco ó Fusco", Manuel María

(Manuel María nasceu no dia 6 de Outubro de 1929. Morreu em 2004.)

Lugares-comuns 100

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 5 de outubro de 2013

Nós bem, graças a Deus

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

Fernando Pessoa inventou e patenteou o aerograma. Exactamente esse Fernando Pessoa, o da "Mensagem" e dos heterónimos - se não sabiam, ficam a saber. O aerograma era uma carta sem envelope e andava de avião. Escrevo era e andava porque não sei se ainda há aerogramas. Se há, são fáceis de reconhecer: os aerogramas são cartas levezinhas e contorcionistas que se dobram e fecham sobre si mesmas. É procurar nos circos.
O aerograma foi um enorme sucesso durante a Guerra Colonial. Era o meio de comunicação preferido entre as famílias cá na então chamada metrópole e os militares enviados lá para o então chamado Ultramar, para o campo de batalha do regime. O aerograma matava saudades entre Portugal e África. Mas também inventava amores, alimentava namoros, alcovitava casamentos. Contava histórias.
Em Fafe, os aerogramas eram vendidos no palacete do Grémio da Lavoura. Entrava-se pela porta das traseiras, e está certo, porque a guerra era uma vergonha. Eu ia comprar aerogramas para a Mila Tripa, que se tornara madrinha de guerra do soldado Valentim que eu não conhecia. Nem ela. A Mila trabalhava na Fábrica Alvorada e era como se morasse connosco, era da família a bem dizer, uma espécie de tia e irmã mais velha, mulher extraordinária que o tempo me obrigou a admirar e respeitar cada vez mais.
Os aerogramas eram oficialmente grátis e já não me lembro quanto é que custavam. Que se segue? Aerograma para lá, aerograma para cá, fotografia para cá, fotografia para lá, e poupando nos pormenores, a Mila e o Valentim passaram naturalmente a namorados e noivaram por correspondência. O soldado Valentim deixou as pernas na guerra, mas voltou homem inteiro e bom. Ele e a Mila casaram. E foi um final feliz.

Noutros casos, não. Às vezes os aerogramas não vinham. Chegava um telegrama e a seguir um caixão. Vi disso em Fafe naqueles anos cinzentos. Apesar da meninice, vivi-o e senti-o profundamente. Vezes de mais. Trinta e sete militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar. O funeral do Zeca Lopes - que era dos nossos, da nossa rua - marcou-me para toda a vida. Creio que há coisa de 25 anos escrevi para a rádio uma crónica a pretexto deste episódio que me persegue, mas não sei dela e tenho pena. Porque, por mais que doa, é preciso não esquecer.

Leio que, após obras de recuperação, o palacete do Grémio da Lavoura (o dos aerogramas para a guerra) vai ser hoje pomposamente inaugurado como novo edifício do Arquivo Municipal, coisa em grande. E isso é bom. De certeza que aquela parte da nossa memória e da História também lá tem reservado o seu cantinho. Ou não?

Lugares-comuns 99

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O meu avô da Bomba, amigo dos animais

O meu avô da Bomba era muito amigo dos animais. Gostava deles por perto, se fosse no prato melhor. Tinha andorinhas. Sim, o meu avô da Bomba tinha as paredes exteriores da casa de quarteleiro enfeitadas com andorinhas de porcelana e um crocodilo também de louça que tomava conta da entrada pelas escadas interiores. O crocodilo apresentava a mandíbula inferior presa por arames, deve ter sido luta valente, história antiga feita segredo de família, porque eu nunca conheci o bicho doutra maneira e até hoje ninguém me contou o sucedido.
O meu avô tinha uma tremenda paixão por pintassilgos e canários. Apanhava-os à falsa fé nuns alçapões que ele próprio fazia e depois alimentava-os e educava-os com paciência de chinês e desvelo de pai babado, espiando-lhes diariamente a definição da plumagem e ensinando-os ti-trrriii a dobrar o canto. Quando os considerava prontos, de solfejo na ponta da língua, o meu avô apresentava-os então à sociedade local, chamava os especialistas para uma primeira audição pública. A ocasião era solene. Era o momento da verdade. "Este não o vendo nem por dois contos", costumava dizer a mangar, se a exibição corria bem, mortinho que lhe aparecesse logo ali um comprador por muito menos. O meu avô era assim, sabia-a toda.
Na Bomba havia cão, geralmente Roni, havia coelhos e galinhas. As galinhas eram fundamentais naquele lar de entusiásticos consumidores de medicamentos e canjas. Havia cabrito na engorda pela Senhora de Antime, como manda a boa tradição fafense, e houve porco, pelo menos uma vez. O meu avô mandou capar o porco, lembro-me muito bem dos guinchos do pobre animal e aquilo afligiu-se-me até aos ossos. Eu estava de partida para o seminário, diziam-me que também ia ser capado, estão a ver portanto a pena que me fazia o porco...

O meu avô da Bomba, que construía alçapões para caçar canários e pintassilgos, mantinha uma banca de sapateiro, velho e honrado ofício de que nunca se apartou. E fazia para casa sandálias e sapatos, daqueles que duram duas ou três vidas. Fez os sapatos que o meu padrinho e tio Américo levou no dia do seu casamento com a querida tia Laura, e que catitas que eles eram: os sapatos e os noivos. O avô da Bomba era uma artesão habilidoso e perfeito. Mãos de ouro. Uma figura. Fazia também fisgas, que dava de prenda aos netos. Depois mandava-nos matar pardais.

Lugares-comuns 98

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Afurada de Gaspar de Jesus

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Cerca de três mil visitantes já passaram pela exposição "Um olhar sobre a Afurada", do fotojornalista e artista fotógrafo Gaspar de Jesus. A mostra continua patente ao público até 31 de Novembro, no Centro Interpretativo do Património da Afurada, Vila Nova de Gaia. Todos os dias, das 10 às 12h30 e das 13h30 às 18 horas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Há sempre alguém que diz não

Foto Hernâni Von Doellinger

José Cardoso Pires

São Vicente, para ser São Vicente e entrar na História como entrou, teve necessidade de dois corvos para o acompanhar que, por sinal, lhe foram sempre fiéis até hoje. Ora, duma ave como esta, tão convivente e tão enigmática, conta-se muita coisa. A própria Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, depois de muitos rodeios, afirma que o corvo é velhaco e ladrão, e isto, bem entendido, com a devida consideração pela agudeza e pela independência no trato que toda a gente lhe reconhece.
"Caguei para a Enciclopédia", diz o Corvo. E para comprovar alça a cauda e, zás, despede um esguicho de caca esbranquiçada. Caca esbranquiçada numa criatura tão negra é que ninguém esperava.
O corvo em questão chama-se Vicente. Puseram-lhe um nome de santo, que mais quer ele, mas nem assim se mostra lá muito reconhecido. Pertence a uma das últimas tascas de Lisboa, daquelas que antigamente, além do vinho, vendiam também carvão, pitrol e molhinhos de carqueja, mas isso foi há muitos anos, na idade do fogareiro e do candeeiro de chaminé, e nessa altura ainda ele não era nascido. Ou talvez fosse, com os corvos nunca se sabe. Há quem afirme que chegam a durar eternidades.
Na porta ao lado da tasca estabeleceu-se há muito tempo uma mulher que vende ovos e criação, sentada numa cadeira de balouço. O Corvo conhece-a, por acaso até a visita. Diz-se que matou o marido com gemadas envenenadas, se é que ela alguma vez teve marido, mas de concreto o que se sabe e está à vista é que passa os dias amarrada à cadeira a fazer malha com um certo ar irado. Parece uma gata gorda de bigodes assanhados, uma bichana doméstica que preenche o tempo a dar à agulha e a contar um dois três laça, um dois três mate, para se esquecer de outros tempos. Mas isso não passa de aparência porque, coitada, o que a consome é aquele coração que Deus lhe deu, um coração tão grande e universal que não lhe cabe no corpo. Daí estar sempre no cadeirão a balouçar, a balouçar, como se procurasse dar ar ao peito ou, então, como se tomasse balanço para se projectar pelos ares, rumo a Deus Nosso Senhor.
Nas suas voltas diárias o Corvo nunca se esquece de ir cumprimentar a galinheira que o trata sempre com grande estima, oferecendo-lhe pedaços de tripa e outros desperdícios das aves que estão penduradas no tecto. "Olá, freguês", cumprimenta-o ela, assim que o vê saltitar no degrau da porta.
Dão-se muito bem, sempre se deram muito bem um com o outro. Dum modo geral a galinheira recebe-o com um sorriso e muda logo para o trágico, levando a mão ao peito e voltando os olhos para o céu: "Sabes, vizinho, este meu coração..." Com isto quer dizer muita coisa, o Corvo sabe. Angina de peito, tonturas, medicações. O Corvo sabe, o Corvo sabe. Faltas de ar, também. Um dois três mate, um dois três laça, ultimamente as faltas de ar têm sido constantes, e a infeliz balança no cadeirão verdadeiramente angustiada. O Corvo, ouvindo-a sempre com a maior atenção, remata toda as vezes da mesma maneira: "Deixe lá, vizinha, deixe lá, que mais dia menos dia todos os males da gente têm fim", e ela então deixa descair os bigodes e perde-se, resignada, a olhar através da porta o Largo das Freiras Descalças que lhe fica mesmo em frente.

"A República dos Corvos", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Follow the leader

Foto Hernâni Von Doellinger

Vicente Risco

Na posguerra, don Celidonio ascendeu de porco a marrán e chegou a alcalde. A parenta inflou coma o fol da gaita.
Agora é presidente da Xuntanza Cidadá e de Outras Sociedades. A parente botou abrigo de chinchilla e petit-gris. Fixerom casa nova e teñen outro automóbil. Aínda podían ter máis. [...]
Don Celidonio é gordo e artrítico. O carrolo sáelle para fóra; na calva tem unha que outra serda; tem as fazulas hipertrofiadas, da cor do magro do xamóm, e tan lustrosas que semella que botan unto derretido; as nádegas e o bandullo vánselle um pouco para baixo.
O lardo rezúmalle por todo o corpo, e no verán súdao en regueiros aceitosos e en pingotas bastas, coma as que deitan os chourizos quando están no fumeiro.
Así como é graxento o corpo, tamén o miolo de don Celidonio. Se lhe escachasem a testa, que tiña que ser com pau-ferro e picaraña, en lugar dunha sesada había atopar um unto. Corpo e alma, tanto ten, todo é graxa e manteiga. Don Celidonio é igual por dentro que por fóra: carne e espírito son a mesma zorza, misturada e revolta, co mesmo adubo de ourego e pemento.

"O Porco de Pé", Vicente Risco

(Vicente Risco nasceu no dia 1 de Outubro de 1884. Morreu em 1963.)