sábado, 31 de janeiro de 2015

Património e material da omanidade

Foto Hernâni Von Doellinger

Por exemplo, o jogo do pau. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e os caretos de Podence e o carnaval de Ovar e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras. Ou as bandas de música. Porque não? Ou os bandos de malfeitores. Ou os submarinos e os bancos, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. Porque não?
Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e vomita património e material da omaninade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

Concepción Arenal 2

La pera verde y podrida

Iba un día con su abuelo
Paseando un colegial,
Y debajo de un peral
Halló una pera en el suelo.

Mírala, cógela, muerde,
Mas presto arroja el bocado
Que muy podrido de un lado
Estaba, y del otro verde.

"Abuelo, ¿cómo será
Decía el chico escupiendo
Que esta pera que estoy viendo
Podrida aunque verde está?."

El anciano con dulzura
Dijo: "Vínole ese mal
Por caerse del peral
Sin que estuviera madura."

Lo propio sucede al necio
Que estando en la adolescencia
Desatiende la prudencia
De sus padres con desprecio.

Al que en sí propio confía
Como en recurso fecundo
E ignorando lo que es inundo
Engólfase en él sin guía.

Quien así intenta negar
La veneración debida
En el campo de la vida
Se pudre sin madurar. 

"Fábulas en Verso - Originales", Concepción Arenal

(Concepción Arenal nasceu no dia 31 de Janeiro de 1820. Morreu em 1893.)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Castelao 2

Lembranza da casa e dun pelo da tía Ádega

A tía Ádega vive nunha casa pequerrecha, sempre ben encaleada, cunha balconeta de madeira, antre dúas fiestras xemelas, e unha porta de dúas follas. A casa ten fisonomía de moneco, con ollos, nariz e boca, e logo un caparuchete de tellas na cabeza. Cando a tía Ádega cerra unha fiestra, a casa chisca un ollo.
Dentro todo está fregadiño de sábado, co chán estrado de area do mar, ben peneirada. No apousento de recebir loce o sofá de respeto con funda de lenzo crú marcado cunha gran letra bermella bordada a punto de cruz. Na cociña brila unha chocolateira de cobre, e pola bufarda do vertedeiro óllase sempre o longo pé dunha col que o vento abanea docemente.
O durmidoiro é o "sancta sanctorum" familiar, onde nasceron e morreron os antergos da casa. A vella é a gardadora deste apartamento de nascer e morrer vedado sempre ás olladas profanadoras dos alleos. Alí o mesmo aire ten que entrar a furto. A vella durme no leito en que veu ao mundo: unha cama de buxo retorneado, aburada de silenzos e saudades. A lampariña de aceite asolaga todo nun cheiro morno e misterioso. Esta lámpara, que foi azucareira noutro tempo, sirve agora de vaso sagrado, onde aboia, día e noite, unha luciña, a morrer de tristura polas moscas que veñen suicidarse no aceite.
Veleiquí as lembranzas que conservo da casa; pero da tía Ádega gardo un punxente recordo: nacéralle no queixo un soio pelo, enribirichado como o rabo dunha o. Este pelo, único, amostraba unha forteza de vinte xuntos, e saíalle para diante, ofensivo como un corno.
Moitas veces o pelo da tía Ádega desaparecía i entón era temíbel, porque sempre lle quedaba, arrentes do queixo, un cañoto cortado en bico de clarinete. Eu lémbrome de que todos os rapaces tíñamos medo aos seus bicos e refugábamos os melindres que nos oferecía, porque todos os pícaros que a tía Ádega bicaba unha vez quedaban avisados para sempre, e por moito que a vella fixese endexamáis lograba espetar dúas veces, nas fazulas dun mesmo neno, aquel terríbel alferrón que Deus lle plantara no queixo.
Non gardo máis lembranzas do seu físico; mais, en troques, teño na memoria un balume de lembranzas da súa bondade. 

"Os Dous de Sempre", Afonso Rodriguéz Castelao 

(Castelao nasceu no dia 30 de Janeiro de 1886. Morreu em 1950.)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

António Feliciano de Castilho 2

Epigramas

I
Amigo, estou tão poeta
que em versos consumo o dia.
Tomara achar um remédio
que me curasse a mania.

Se queres gelar o estro,
isso está na tua mão: 
lê as odes de Filinto
e os sonetos do Garção. 

II
Brevemente sai à luz
obra de um génio distinto:
uma versão portuguesa
da Opera Omnia de Filinto.

III
Amigo, tive esta noite
negro, horrível pesadelo;
ainda ao lembrar-me dele
se me arrepia o cabelo.

Deus te livre, e livre a todos,
de sentir o que inda sinto: 
pois não sonhei que me liam
três páginas do Filinto?

IV
Exclamou certo avarento
a um que se ia enforcar:
"– Feliz homem, que três dias 
pôde comer sem gastar!". 

V
André Pinto andar não pode,
manda médico chamar.
Chega o médico... receita...
e André Pinto põe-se a andar! 

António Feliciano de Castilho

(António Feliciano de Castilho nasceu no dia 28 de Janeiro de 1800. Morreu em 1875.)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Afonso Lopes Vieira

Saudades não as quero

Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito

Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero

Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram


Afonso Lopes Vieira

(Afonso Lopes Vieira nasceu no dia 26 de Janeiro de 1878. Morreu em 1946.)

O Titanic era manquinho desta perna

Enquanto o FC Porto naufragava natural e definitivamente a 517 milhas do cabo Espichel, eu ouvia (do verbo ouver), no canal Mezzo, o "Concerto para piano e orquestra n.º 1 em si bemol menor, op. 23", de Tchaikovsky. Ouvia e lembrei-me do Titanic. O Titanic era o cão da minha tia Hermenegilda, e, coitadinho, era manquinho desta perna.

(Quanto à música: Orquestra de Paris, dirigida pelo maestro Paavo Järvi, com o cada vez mais largo e zangadíssimo Yefim Bronfman ao piano. E, sim, ainda tenho Sport TV.)

domingo, 25 de janeiro de 2015

Eusebio Lorenzo Baleirón

Mencer en Compostela 

Ao lombo dun poldro de néboa vai chega-lo día
incendiando as campías coa súa luz de soño
e diranos da auga como dorme nas canles
e perderase ledo polos arbres antergos. 
Nos xardíns, como sempre, xermolarán os lirios
e todo será entón imaxe da memoria.
Xa vai chega-lo día sobre un poldro de néboa
para abanar recordos e recubri-las lousas.
E falarei convosco e con todo o que vive
das múltiples facianas que quedan en nós mesmos,
e xuntaría forzas para inventar cada hora
fervenzas de ilusión con que vestirme os ollos...
Que vai chega-lo día a cabalo dun poldro 
e tan só do meu corpo poderán quedar sombras.

Eusebio Lorenzo Baleirón 

(Eusebio Lorenzo Baleirón nasceu no dia 25 de Janeiro de 1962. Morreu em 1986.)

sábado, 24 de janeiro de 2015

Augusto Meyer

Chewing gum
 
Masco e remasco a minha raiva, chewing gum.
Que pílula este mundo!
Roda roda sem parar.
Zero zero zero zero,
é uma falta de imprevisto...

Quotidianissimamente enfastiado,
engulo a pílula ridícula,
janto universo e como mosca.

Comi o mio-mio das amarguras.
A raiva dói como um guasqueaço.

Amolado.
Paulificado.
Angurreado.

Bilu, pensa nas madrugadas que virão,
aspira a força da terra possante e contente.


Cada pedra no caminho é trampolim.
O futuro se conjuga saltando.

Depois:
indicativo presente -
caio em mim.


"Poemas de Bilu", Augusto Meyer

(Augusto Meyer nasceu no dia 24 de Janeiro de 1902. Morreu em 1970.)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. Não por mim, nem feliz nem infelizmente. E fiquei com esta impressão, que preferi amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche ou os hipocondríacos com assinatura; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão e sem rede; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Claro que não tem nada a ver (falecer acontece a qualquer um e em todo o lado), mas: um cirurgião morreu ontem, no Hospital de Aveiro, quando estava a operar um paciente.

(Texto escrito e publicado no dia 17 de Abril de 2014. Já se morria nas urgências - eu vi -, e mais não havia "epidemia de gripe", nem "surto gripal", nem o "caos" com aspas com que os políticos gostam tanto de jigajogar. (Os políticos e os jornalistas pelam-se por brincar às escondidas atrás das aspas.) Era apenas o caos normal, o caos do dia-a-dia numa Urgência de carne e osso - em exibição num hospital perto de si.)

João Ubaldo Ribeiro 2

As traduções são muito mais complexas do que se imagina. Não me refiro a locuções, expressões idiomáticas, palavras de gíria, flexões verbais, declinações e coisas assim. Isto dá para ser resolvido de uma maneira ou de outra, se bem que, muitas vezes, à custa de intenso sofrimento por parte do tradutor. Refiro-me à impossibilidade de encontrar equivalências entre palavras aparentemente sinônimas, unívocas e univalentes. Por exemplo, um alemão que saiba português responderá sem hesitação que a palavra portuguesa "amanhã" quer dizer "morgen". Mas coitado do alemão que vá para o Brasil acreditando que, quando um brasileiro diz "amanhã", está realmente querendo dizer "morgen". Raramente está. "Amanhã" é uma palavra riquíssima e tenho certeza de que, se o Grande Duden fosse brasileiro, pelo menos um volume teria de ser dedicado a ela e outras, que partilham da mesma condição.
"Amanhã" significa, entre outras coisas, "nunca", "talvez", "vou pensar", "vou desaparecer", "procure outro", "não quero", "no próximo ano", "assim que eu precisar", "um dia destes", "vamos mudar de assunto", etc. e, em casos excepcionalíssimos, "amanhã" mesmo. Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que são necessários vários anos de treinamento para distinguir qual o sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro, quando ele responde, com a habitual cordialidade nonchalante, que fará tal ou qual coisa amanhã. O caso dos alemães é, seguramente, o mais grave. Não disponho de estatísticas confiáveis, mas tenho certeza de que nove em cada dez alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de "amanhãs" casuais que os levam, no mínimo, a um colapso nervoso, para grande espanto de seus amigos brasileiros - esses alemães são uns loucos, é o que qualquer um dirá.

"Um Brasileiro em Berlim", João Ubaldo Ribeiro

(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)

Lugares-(in)comuns 101

Foto Hernâni Von Doellinger

Viriato Correia 2

Não me lembro qual a minha idade quando ficou decidido que, no ano seguinte, eu entraria para a escola.
Mas eu devia ser muito e muito pequeno. Tão pequenino que não pronunciava direito as palavras e ainda chupava o dedo e vestia roupinhas de menina.

Mas não imaginem que eu fosse um menino excepcional, desses meninos-prodígios, ajuizados e sisudos, que não riem, não brincam e não saltam, dando à gente a impressão de que já nasceram velhos.
Pelo contrário. Eu era uma criança alegre, traquinas e estouvada, que vivia correndo pelo quintal e fazendo estripulias pela casa.
Dois motivos é que me deram vontade de estudar.
O primeiro deles - as calças. Desde que me entendi, tive a preocupação de ser homem e nunca me pude ajeitar nos vestidinhos rendados de menina. Sempre olhei com inveja os garotos mais taludos do que eu, não porque eles fossem maiores e gozassem regalias que os garotinhos não gozam, mas porque usavam calças.
Minha mãe prometia freqüentemente:
- Quando você entrar para a escola deixará dos vestidinhos.
E, por amor às calças, comecei a mostrar amor aos livros.

O segundo motivo é que o primeiro contato que tive com uma escola foi através de uma festa. E ficou-me na cabeça a idéia de que a escola era um lugar de alegria.

"Cazuza", Viriato Correia

(Viriato Correia nasceu no dia 23 de Janeiro de 1884. Morreu em 1967.)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

E se fossem traduzir o... Jorge Jesus?

Foto Hernâni Von Doellinger

Julen Lopetegui, o basco, chega à famosa "zona da flash interview", no final do jogo com o SC Braga. Nos estúdios da rádio Antena 1, o pivot da emissão avisa que vai traduzir as declarações do treinador do FC Porto. Lopetegui, o estrangeiro, diz: "Esta noite estoi muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso de nuestros adeptos, isto és el Porto, és el Porto, dentro e fuera de campo". Da cabine de Marechal Gomes da Costa, em Lisboa, sai a tradução simultânea e reveladora, legendas sonoras em português suave: "Esta noite estou muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso dos nossos adeptos, isto é o Porto, é o Porto, dentro e fora do campo". Extraordinário! Sem a ajuda da Antena 1, como é que teríamos percebido?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Aníbal Otero

Tanxen os senos

Tanxen os senos. Campana non te esquecias que a túa voz é a
dianteira no ceo do tempo que eu non podo pasar.


A túa voz é o abrente, lonxe de ese día azul que sinto, lonxe,
lonxe, i-o que eu, nesta profunda soedá saudade en que me encontro,
non acho de ningunha maneira.


O sentimento do meu cerco imposible de salvar, de o último de
min mismo, faime amar esa campana que agora me recorda a noite
aberta a un tempo que pode ser para min.


Aníbal Otero

(Aníbal Otero nasceu no dia 21 de Janeiro de 1911. Morreu em 1974.)

Lugares-comuns 193

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Euclides da Cunha

De repente, uma variante trágica.
Aproxima-se a seca.
O sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.
Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.
Buckle, em página notável, assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca, o homem, às calamidades naturais que o rodeiam. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado pelas vibrações da terra.
Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estóico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.

"Os Sertões", Euclides da Cunha

(Euclides da Cunha nasceu no dia 20 de Janeiro de 1866. Morreu em 1909.)

Se eu tivesse um Maserati

Foto Hernâni Von Doellinger

Agora aos fins-de-semana este Maserati estaciona assim, ali, durante as hooooras de almoço. Gosto de ver. Eu, se tivesse um Maserati, também estacionava assim, ali. Para que soubessem.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A D. Quixote vai mandar-me um livro em condições

A propósito do meu texto "A Fnac e a Leya andam a vender livros assim", recebi esta tarde um e-mail de Cecília Andrade, editora da Dom Quixote (grupo Leya). Aqui o transcrevo, com a devida autorização:

Boa tarde, 
Tomei conhecimento do seu comentário no seu blog sobre os erros de impressão num exemplar do livro "Teatro de Sabbath". Lamento o que lhe aconteceu e quero desde já manifestar-lhe a minha indignação pelo facto de a FNAC não lhe ter trocado o livro. Uma troca por defeito não deveria nunca seguir as regras de trocas das lojas. As editoras, por regra, recebem os exemplares com defeito e substituem-nos. Pelo que só posso concluir que a FNAC não se preocupa muito com os clientes. É pena.
Uma vez que o livro tem um erro de impressão, a responsabilidade é da gráfica que tem que assegurar um controlo de qualidade. Este livro terá escapado a esse controlo. Mas a responsabilidade é também nossa e por isso agradeço que me envie o seu endereço postal para lhe mandar um exemplar em condições. Não se deixa a meio um livro de que se gosta – e muito menos um livro de Philip Roth, digo eu. 
Fico a aguardar.
Obrigada.
Com os melhores cumprimentos,
Cecília Andrade

A Fnac e a Leya andam a vender livros assim


A fotografia não está desfocada. O livro veio mesmo assim, ilegível - triste destino para o que é escrito para ser lido. Ofereceram-mo pelo Natal, comecei hoje a ler e encontrei esta merda: uma série de páginas com graves defeitos de impressão, algumas páginas esborratadas e absolutamente ilegíveis. O livro é "Teatro de Sabbath", de Philip Roth, edição da Leya/D. Quixote, e foi comprado na Fnac do NorteShopping. Liguei há bocado para a Fnac a perguntar se faziam o favor de mo trocar, uma vez que manifestamente foi vendido com defeito de fabrico. Que não, que já tinham passado os trinta dias regulamentares para apresentar reclamação - foi o que responderam.
Portanto, se vai à Fnac comprar um livro (e recomendo-lhe que não vá), não se esqueça de inspeccionar todas as páginas, uma a uma, antes de o levar para casa. E tem um mês para o ler ou está fodido.

Já agora, a alma caridosa que me oferece os meus melhores livros deu-me também, pelo Natal, "As Aventuras de Augie March", de Saul Bellow, edição da Quetzal, comprado igualmente na Fnac do NorteShopping. Acabei-o ontem. O livro é extraordinário, melhor do que um filme, mas a revisão do texto é uma desgraça. Faltam artigos definidos às carradas, multiplicam-se os erros de concordância, refazem-se frases sem se apagar as palavras alegadamente substituídas, aparecem do nada, aqui e ali, páginas com um português construído à la brasileira. Como disse, uma desgraça. E, como se prova, uma desgraça nunca vem só.

Eugénio de Andrade 2

As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


"Poesia e Prosa", Eugénio de Andrade

(Eugénio de Andrade nasceu no dia 19 de Janeiro de 1923. Morreu em 2005.)

Uxío Novoneyra

Se o pasado é pasado
i o presente é o urgente
por qué inda busca a xente
aquil soño clausurado?
Vido visto ben Santiago
i esa cuestión non resolta

fago camiño de volta
camiño de volta fago.
Camiño de volta fago
volvo do cabo do Mundo.
Terra sólo en ti me fundo:
é a certeza que trago.


Uxío Novoneyra

(Uxío Novoneyra nasceu no dia 19 de Janeiro de 1930. Morreu em 1999.)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Schengen, para que te quero

Por exemplo. Uma mulher morena e grávida, no aeroporto. Deve ser detida por contrabando ou por apoio à emigração ilegal?

Autran Dourado

O senhor querendo saber, primeiro veja:
Ali naquela casa de muitas janelas de bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e ruindade, mais sem-que-fazer de menino), escondida detrás das cortinas e reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado formando flores estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal facetado cor de vinho que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles balcões.
O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o coração - imagine, mais do que com os olhos, os olhos são apenas conduto, o olhar é que importa. Estique bem a vista, mire o casarão como num espelho, e procure ver do outro lado, no fundo do lago, mais além do além, no fundo do tempo. Recue no tempo, nas calendas, a gente vai imaginando, chegue até ao tempo do coronel Honório - João Capistrano Honório Cota, de nome e conhecimento geral da gente, homem cumpridor, de quem o senhor tanto quer saber, de quem já conhece a fama, de ouvido – de quem se falará mais adiante, nas terras dele, ou melhor, do pai - Lucas Procópio Honório Cota, homem de quem a gente se lembra por ouvir dizer, de passado escondido e muito tenebroso, coisas contadas em horas mortas, esfumado, já lenda-já história, lembranças se azulando, paulista de torna-viagem das Minas, de longes sertões, quando o ouro secou para a desgraça geral, as grupiaras emudeceram; e eles tiveram de voltar, esquecidos das pedras e do outro, das sonhadas riquezas impossíveis, criadores de gado, potentados, esbanjadores ou unhas-de-fome - conforme a experiência tida ou a natureza, fazendeiros agora, lúbricos, negreiros, incestuosos, demarcadores, ladrilhando com seus filhos e escravos este chão deserto, navegadores de montes e montanhas, políticos e sonegadores, e vieram plantando fazendas, cercando currais, montando pousos e vendas, semeando cidades no grande país das Gerais, buscando as terras boas de plantio, as terras roxas e de outras cores em que o sangue e as lágrimas entram como corantes - nas datas de que, por doação e todos os mais requisitos da lei, se ergueu a Igreja do Carmo e se fez o Largo.

"Ópera dos Mortos", Autran Dourado

(Autran Dourado nasceu no dia 18 de Janeiro de 1926. Morreu em 2012.)

sábado, 17 de janeiro de 2015

É preciso ter azar

No dia em que Quitério se decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia. Quitério ficou como um pito. E resolveu, dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

Lugares-(in)comuns 100

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Valentim Magalhães

Íntimo

Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,

Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...

A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;

Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.


Valentim Magalhães

(Valentim Magalhães nasceu no dia 16 de Janeiro de 1859. Morreu em 1903.)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ó da Guarda

Ó da Guarda, gritou Quitério. Faz favor de dizer, apresentou-se Manuel Miguel de Sousa Pelica, nascido e residente na ex-freguesia de Avelãs de Ambom, e por acaso de visita ao Porto derivado a uma consulta.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Fábula em 152 caracteres (com espaços)

No tempo em que os animais falavam, o cão disse: ão, ão, ão. E o gato perguntou: és gago ou quê, ó chien de merde? O gato era, com efeito, poliglota.

Franklin Távora

O Cabeleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado à prática dos mais hediondos crimes.
De parceria com um pardo de nome Teodósio, que primou na astúcia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perímetro da província em todas as direções, deixando a sua passagem assinalada pelo roubo, pelo incêndio, pela carnificina.
Um dia assentaram dar um assalto à própria vila do Recife.
As populações do interior, em sua maioria destituídas de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que atualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos três aventureiros a quem desde muito pagavam um triplo imposto consistente em víveres, dinheiro e sangue. O assalto foi resolvido em secreto conciliábulo dentro das matas de Pau-d'Alho onde mais de uma vez se haviam reunido para concertos idênticos.
Na mesma hora aperceberam-se para a temerária tentativa e, com o arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando de antemão com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.
À notícia da sua aproximação, a maior parte dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos por não terem ainda a densidão que só um século depois tornou alguns deles respeitáveis, emigrou para os matos, único abrigo com que lhes era permitido contar, embora se achassem a poucas léguas do Recife; tais houve que, não tendo tempo ou recursos para fugir aos cruéis visitantes, lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu desagrado.

Ao declinar do dia seguinte, eram eles na Estância. Sentaram-se no adro da capela de taipa que fora aí levantada por Henrique Dias, para recordar aos vindouros que nesse lugar tivera ele o seu posto militar pelas guerras da restauração. Esse posto era, dentre todos, o que ficava mais vizinho ao inimigo. Eloqüente testemunho da bravura do troço da gente preta a quem a pátria reservou distinta menção nas maiores páginas da história colonial.
- É muito cedo para entrarmos na vila, disse o Cabeleira. E não será até melhor que o Teodósio vá primeiro que nós para assentar ainda com dia no meio mais certo de realizar a empresa?
- Tens razão, José Gomes - acrescentou Joaquim: o Teodósio, que é macaco velho, deve ir adiante a sondar as coisas. Para bater o pé ao inimigo e fazer frente a qualquer dunga, vocês sabem muito bem que eu sou cabra decidido; agora, para espertezas não contem comigo; isso é lá com o Teodósio, que é mestre em saberetes; e ninguém lhe vai ao bojo.
Os três malfeitores traziam consigo bacamartes, parnaíbas, facas e pistolas.
Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e lânguidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na prática do crime, tinha uma expressão de insinuante e jovial candidez.


"O Cabeleira", Franklin Távora 

(Franklin Távora nasceu no dia 13 de Janeiro de 1842. Morreu em 1888.)

Lugares-(in)comuns 99

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Rubem Braga 2

Recado ao Sr. 903

Vizinho,
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador do prédio, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser meia-noite - e a sua veemente reclamação verbal.
Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003.
Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.
Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua.
Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305.
Nossa vida, vizinho, está toda numerada, e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas - e prometo silêncio.
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Rubem Braga

(Rubem Braga nasceu no dia 12 de Janeiro de 1913. Morreu em 1990.)

domingo, 11 de janeiro de 2015

A propósito de tabloidismo e outros truques que tais

Imagem SLIDESHARE
Foto JOÃO CARLOS SANTOS/EXPRESSO

Oswald de Andrade 2

Brasil

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval 

Oswald de Andrade

(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)

sábado, 10 de janeiro de 2015

O meu cinema paraíso

Foto Hernâni Von Doellinger

Parece o reclame de um salão de cabeleiro unissexo. "Sansão & Dalila", diz, e atira-se-me aos olhos. Vejo e desinteresso-me, primeiro, mas ele está ali mesmo à minha frente, colado no interior da carruagem do metro que abandona com todos os vagares a cave da antiga estação da Avenida da França. Estou informado de que hoje aquele buraco tão ajeitado se chama estação da Casa da Música. E de repente o reclame começa a exercer sobre mim um fascínio inesperado e misterioso. Olho melhor, a ver se percebo o que se passa comigo: ah!, afinal é a ópera de Camille Saint-Saëns, que vai à cena no Coliseu do Porto. Correcto. É "Sansão e Dalila", assim está bem. O e não é & comercial, é apenas truque gráfico, modernice para enganar parolos. Eu. Pronto, está tudo esclarecido...
Mas não estava. O anúncio continuava a chamar por mim. Que raio de poder hipnótico poderia ter aquele pedaço de papel plastificado? As palavras mágicas não paravam de ecoar na minha cabeça, enovelando-se em não sei quê que eu sabia. "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila". Dasse! Resolvi-me, levantei-me do meu lugar, dei dois passos em frente, tirei os óculos, semicerrei os olhos e tentei espreitar para dentro do reclame. O metro apitou, uma, duas, três vezes, e o reclame abriu-se num clarão como se fosse o meu espelho de Alice, puxando-me pelas orelhas e tornando-me aos confins do meu passado, numa viagem instantânea até ao tempo em que

eu era um miúdo. Éramos todos uns miúdos. E íamos em bando até à porta da D. Laura Summavielle, filha, que morava à beira da Igreja Nova. Os Summavielles (Sumaviéis, como se diz na terra) eram os donos do Teatro-Cinema de Fafe, do Cinema. E nós íamos pedir à D. Laura, que devia ser o melhor coração da família e para mim era o melhor coração do mundo, que nos levasse a ver o filme de graça. E a boa senhora levava.
(Para os modernos, explico que de graça quer dizer de borla.)
A coisa tinha o seu ritual. Esperar à porta do cinema não valia, tínhamos de ir mesmo a casa da D. Laura, que também não era longe. Éramos para aí uns seis ou sete, às vezes menos, consoante o lado para que tinham acordado os pais de cada qual, e devíamos lá chegar pelo menos com uma boa meia hora de avanço em relação à hora de saída prevista da senhora. Chegávamos e esperávamos. Não se batia à porta, não se tocava na campainha, esperávamos apenas, calados como ratos, porque o mais pequeno ruído podia deitar tudo a perder.
A senhora aparecia, encarava-nos sempre com um grande sorriso e nós continuávamos sem dizer nada, nem era preciso. Púnhamo-nos atrás dela, distinta, mudinhos como se fôssemos, em fila e a distância sensata, tal qual pintainhos seguindo a mãe galinha, e, agora que penso nisto, acho que devia ter sido uma coisa bonita de se ver por fora, aquele extraordinário grupo a atravessar o largo da igreja e a descer até ao Cinema, na máxima compostura e no mais religioso silêncio.
A D. Laura entrava e nós ficávamos com o nariz encostado à porta de ida e volta, bem guardados pelo Sr. Leitão porteiro, que era mau como as cobras e vestia um capote castanho, com botões dourados e gola vermelha, que até parecia um general soviético, embora na bilheteira é que estivesse o Sr. Castro, comunista, alfaiate e bom amigo.
Perdíamos os desenhos animados, perdíamos os "documentários", mas na horinha do arranque do filme a sério vinha a ordem da D. Laura e imediatamente desatávamos a correr Cinema acima, dois andares a bater chancas em chão de soalho com escarradores, numa trovoada que quase deitava a casa abaixo, até chegarmos ao nosso sítio. Só ali voltávamos a portar-nos bem, sempre perante o olhar bondoso e compreensivo da nossa benfeitora, que, do seu camarote ao lado da cabina de projecção do Sr. Reinaldo Pires, nos lançava mais um sorriso, com o dedo de chiu sobre os lábios finos.
O nosso sítio era uma frisa e cheirava a veludo velho e tabaco. Quase que pertencíamos ao filme. O som dos altifalantes entrava-nos pelo corpo dentro, estremecia-nos, eu era do tamanho dum buraco do nariz do Maciste e tinha que me afastar para não ser espirrado. Foi ali que eu conheci pessoalmente o Ursus, o Spartacus, o Ben-Hur e o Hércules, e podem crer que aqueles cenários de papelão só pareciam de papelão. Eu sei, porque estive lá, nos filmes. Fui eu que ajudei o Sansão a dizer "morra Sansão e todos os que aqui estão", para eu e ele nos vingarmos da traidora da Dalila e acabarmos com o filme logo ali, porque aquilo não se faz, e não me venham dizer que ele não disse nada disto.
Perguntassem ao Sandim. Ele é que ia à estação de comboios "buscar os artistas", num carrinho com rodas de madeira. Mas não trazia os beijos todos. Não cabiam nas bobinas, decerto. As cópias dos filmes eram velhas, cheias de cortes, no melhor e mais quentinho passavam sempre à frente. Como o Jornal da Igreja Nova trazia uma sinopse das películas do fim-de-semana, nós achávamos que o Sr. Arcipreste fazia um visionamento prévio e culpávamo-lo por aquele imperdoável acto de censura. Mal eu sabia que ainda havia de ser feito um filme sobre esta história fafense, mas em italiano.
No meu Cinema, no tempo em que o que eu queria era crescer para ver filmes "para maiores de 17", havia também umas senhoras da Rua de Baixo e de Santo Ovídio que faziam de arrumadoras e tomavam conta do buffet, onde serviam gasosas, laranjadas, café de cafeteira e rebuçados mulatos. Ao intervalo, enquanto o ardina entrava plateia adentro com a edição do Norte Desportivo de domingo à noite, já com os resultados e relatos dos jogos todos, os espectadores recebiam umas senhas para irem lá fora tomar café em condições. Iam ao Peludo, o Cine-Bar.
No meu Cinema liam-se as legendas em voz alta para os analfabetos, que eram uma fartura. O respeito e a, como hoje se diria, segurança eram zelados pelo Sr. Barroco, pelos Sr. José e Sr. António do Santo e pelo Sr. António Quim, que eu sempre confundi com o outro, o de "Zorba, o Grego". Foi na companhia desta gente que eu cresci. Mal comecei a ganhar, passei a ter bilhete reservado para todas as sessões e, depois do 25 de Abril, até vi o "Último Tango em Paris". Duas vezes.

Deixei Fafe no início da década de 1980 e o meu Cinema entrou em ruína. Pensei que outros tivessem ficado a tomar conta, mas enganei-me. Depois de 25 anos de inactividade, muita politiquice e um impressionante trabalho de recuperação, o Teatro-Cinema de Fafe reabriu portas em 2009, sem Maciste, sem Sansão nem Dalila, sem o Sr. José do Santo e sem a D. Laura Summavielle. Já lá não estão, já cá não estão. O novo Teatro-Cinema de Fafe, que só conheço por fora, funciona agora como entreposto cultural camarário. O que é certamente aplaudível e tem muito mais cagança, mas não é a mesma coisa.

(O Teatro-Cinema de Fafe foi inaugurado faz hoje 91 anos, recorda-me o blogue Falaf Magazine, de Jesus Martinho. Impõe-se, portanto, a reprise... da reprise (versão vagamente melhorada). E já agora, aproveitando a efeméride, pergunto, apenas por ignorância e sem cinismo: D. Laura Summavielle já tem nome de rua em Fafe? Ao menos, evidentemente, nome de sala no novo Teatro-Cinema, tem?)

José Américo de Almeida 2

Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da seca. Uns olhos espasmódicos de pânico, assombrados de si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante.
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.
Lúcio almoçava com o sentido nos retirantes. Escondia côdeas nos bolsos para distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves de arribação.
A cabroeira escarninha metia-os à bulha:
- Vem tirar a barriga da miséria ...
Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas.
A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.
Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
Vem comer minha farinha... 

Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A história das secas era uma história de passividades.
Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores. Outros ronronavam, como se estivessem engolindo golfadas de ódio.
E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas visionadas, goravam seus sonhos de redenção.

"A Bagaceira", José Américo de Almeida

(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)

Lugares-comuns 192

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

João Cabral de Melo Neto 2

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


"A Educação pela Pedra", João Cabral de Melo Neto

(João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de Janeiro de 1920. Morreu em 1999.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Josué Guimarães 2

O trem apitou, Eduardo deu uma olhada pela janela e viu que faltava menos de um quilômetro para atravessar a ponte sobre o Jacuí, numa zona baixa de campo onde caçavam perdiz. Era só atravessar a balsa, a cachorrada inquieta, as velhas espingardas de dois canos. Ao rever aquele pedaço de terra teve a sensação de enxergar seu pai e o dono do bar Minuano, um homenzinho barrigudo de gorro de lã enfiado até as orelhas, Seu Zeno; o sargento da Brigada Militar e comandante do Destacamento de Polícia, Euzébio Machado, cem quilos de uma mistura de índio com branco, bigodes caídos nos cantos da boca, palheiro nos beiços ou enfiado atrás da orelha; o Dr. Euríclides, juiz de paz, casado com uma mocinha de grandes peitos e olhar sonolento. Quando menino, Eduardo acompanhava as caçadas para carregar os cachorros - não havia um perdigueiro entre eles - e dava um duro no trabalho, voltando para casa, ao cair daquelas frias noites, mais morto do que vivo, sem ter dado um tiro de bodoque. Parecia, agora, tudo no mesmo lugar, as mesmas árvores, as cercas e os caminhos. Ao cruzar a ponte de ferro viu o prédio amarelo, a placa descascada, as letras em alto-relevo, negras, "Estação Abarama". O casario da Baixada, uma zona alagadiça com seu amontoado de favelas de tábuas e pedaços de lata, tudo gente da beira-rio, os moleques embarrados jogando futebol; onde andaria àquelas horas o Edmundo Pescador, o primeiro sujeito que vira com longas barbas de profeta, delegado encanzinado de sua gente? Vivia bebendo nos bares, dando socos no balcão, "um dia a nossa gente descobre a força que tem". Bêbado, não tropeçava e nem andava em ziguezague, era uma reta só até a Baixada.

"Depois do Último Trem", Josué Guimarães

(Josué Guimarães nasceu no dia 7 de Janeiro de 1921. Morreu em 1986.)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Marques Rebelo 2

Morávamos nós em São Francisco Xavier, perto da estação, numa boa casa de dois pavimentos, jardinzinho com repuxo na frente e fresca varanda do lado onde nascia o sol, se bem que por essa época não andasse ainda meu pai muito certo da sua vida para arrastar, sem alguma dificuldade, o luxo de residência tão ampla e confortável, mas temos que perdoar a ele, entre outras fraquezas, esta da ostentação, já que a perfeição foi negada por Deus à alma das criaturas. Eis, senão quando, meu irmão Aluísio, o demônio em figura de gente, ao praticar certa travessura arriscada na sala de visitas, aliás sempre fechada a chave e que, a não ser aos sábados para a limpeza, raras vezes se abria para receber gente de fora, pois poucas eram as nossas amizades, caiu e deitou por terra a elegante peanha de canela, que ficava por trás do sofá de palhinha.
Isso, convenhamos, pouca importância teria se, sobre a peanha, não estivesse, como em precioso nicho, o rico vaso da China, um legítimo Sé-Tchun, que papai freqüentemente gabava - isto é que é a verdadeira arte, meninos! - e que mamãe admirava por seu outro valor: ser das únicas coisas que escaparam à voracidade de tio Alarico, um desmiolado, quando foi feita a partilha dos bens do seu avô, que era barão e morrera na Europa.
De tarde, papai chegando, ainda nem tinha tirado o chapéu de lebre, que usava desabado, e já mamãe o punha ao corrente, com meticulosa exposição, do desgraçado acidente.
- Aluísio!
A voz de meu pai foi tão estranha, diversa e violenta, que minha mãe, coitada, ficou branca, arrependida imediatamente de ter nomeado, precipitada, o santo do milagre.

"Oscarina", Marques Rebelo

(Marques Rebelo nasceu no dia 6 de Janeiro de 1907. Morreu em 1973.)

domingo, 4 de janeiro de 2015

Celso Emilio Ferreiro 2

Longa noite de pedra
 
O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan,
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.

"Longa Noite de Pedra", Celso Emilio Ferreiro

(Celso Emilio Ferreiro nasceu no dia 4 Janeiro de 1912. Morreu em 1979.)

Casimiro de Abreu 2

Na rede

Nas horas ardentes do pino do dia
Aos bosques corri;
E qual linda imagem dos castos amores,
Dormindo e sonhando cercada de flores
Nos bosques a vi!


Dormia deitada na rede de penas
- O céu por dossel,
De leve embalada no quieto balanço
Qual nauta cismando num lago bem manso
Num leve batel!


Dormia e sonhava - no rosto serena
Qual um serafim;
Os cílios pendidos nos olhos tão belos,
E a brisa brincando nos soltos cabelos
De fino cetim!


Dormia e sonhava - formosa embebida
No doce sonhar,
E doce e sereno num mágico anseio
Debaixo das roupas batia -lhe o seio
No seu palpitar!


Dormia e sonhava - a boca entreaberta,
O lábio a sorrir;
No peito cruzados os braços dormentes,
Compridos e lisos quais brancas serpentes
No colo a dormir!


Dormia e sonhava - no sonho de amores
Chamava por mim,
E a voz suspirosa nos lábios morria
Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia
De algum bandolim!


Dormia e sonhava - de manso cheguei-me
Sem leve rumor;
Pendi-me tremendo e qual fraco vagido,
Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido
Falei-lhe de amor!


Ao hálito ardente o peito palpita...
Mas sem despertar;
E como nas ânsias dum sonho que é lindo,
A virgem na rede corando e sorrindo...
Beijou-me - a sonhar!


Casimiro de Abreu

(Casimiro de Abreu nasceu no dia 4 de Janeiro de 1839. Morreu em 1860.)

sábado, 3 de janeiro de 2015

Vasco Graça Moura 2

Soneto do amor e da morte 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

"Antologia dos Sessenta Anos", Vasco Graça Moura

(Vasco Graça Moura nasceu no dia 3 de Janeiro de 1942. Morreu em 2014.)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Mário-Henrique Leiria 2

Separata gratuita

O que aconteceria
se o arcebispo de Beja
fosse ao Porto
e dissesse que era Napoleão

Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.
Então o arcebispo de Beja dizia:
- Sou a Josefa de Óbidos.
Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o Castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na torre de menagem. Além disso davam-lhe trouxas d’ovos.
Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.

"Novos Contos do Gin", Mário-Henrique Leiria

(Mário-Henrique Leiria nasceu no dia 2 de Janeiro de 1923. Morreu em 1980.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

João de Araújo Correia

O Inglês tinha-se apaixonado pelo concelho. Amava o planalto como doido. A pouco e pouco, ia-o estudando e fixando. Andava sempre de lápis em punho e objectiva às ordens, pendente de uma correia como útil condecoração.
Naquele domingo, depois de almoçar um bife de vitela, tenro como água, mas um pouco débil, oh, yess, bebeu mais um copo de velho vinho do Porto, glorious wine, e resolveu sair. Sacudiu as moscas, olhou para o Bom Jesus do Monte, que ornava em litografia a sala da pensão, fez duas perguntas à criada que lhe servira a vitela, e saltou à rua - se assim se pode chamar a uma vereda esburacada.

"Folhas de Xisto", João de Araújo Correia

(João de Araújo Correia nasceu no dia 1 de Janeiro de 1899. Morreu em 1985.)

Afonso Duarte

Rosas e cantigas

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? - Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.

Afonso Duarte

(Afonso Duarte nasceu no dia 1 de Janeiro de 1884. Morreu em 1958.)