domingo, 31 de maio de 2015

Entre o épico e o dantesco

Havia um sábio chefe de redacção que afinava solenemente quando os seus jornalistas escreviam que o incêndio era "dantesco". "Não há incêndios dantescos!", vociferava definitivo o mestre, cortando a riscos de esferográfica e raiva a asneirola que tanto o incomodava. Porque as palavras querem dizer e têm preço, um valor específico, não devem ser usadas à toa e de graça.
Esta noite os jornais dizem-me que a vitória do Sporting na Taça foi "épica". Pois também me parece um exagero. Foi um simples jogo de futebol, os Leões apenas venceram o Braga, a história de Portugal não muda por causa disso, a Terra não passou a girar ao contrário e amanhã cá estaremos todos na mesma merda, sportinguistas incluídos, com Passos Coelho e Portas à perna.
Sim, eu sei: o problema dos títulos dos jornais é terem de ser feitos.

Caminho 23

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 30 de maio de 2015

Wenceslau de Moraes 3

Antigamente - e quem sabe se ainda hoje! - no seio do oceano era o reino faustoso dos dragões. Por longos anos, o senhor deste reino, o dragão real, viveu celibatário, numa existência descuidosa; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som de shamicen e lhe iam servindo saké em ricas taças, ele passou em travessas intimidades amorosas!…
Verdores que passam breve. Um belo dia, resolveu casar-se o bom soberano. A jovem escolhida foi uma jovem dragoazita, dezasseis anos apenas, adorável, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz de tal senhor. Esplêndidas foram as bodas para essa ocasião, segundo consta: já sem falar na corte íntima, toda a bicharada aquática, peixes, mariscos, moluscos, todos vieram processionalmente em cardumes, em belos quimonos de sedas encarnadas, oferecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em danças, em músicas, em banquetes…
Mas nem os dragões escapam às duras provações da existência! Ainda nem um mês se não passara, quando a augusta soberana caiu doente; e tais cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lástima observar as trombas compungidas dos fidalgos, comentando baixinho, em lamentações do seu ofício, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferência; falaram muito, discutiram muito, sem chegarem a acordo, como sempre sucede; consultaram-se abalizados alfarrábios de terapêutica; as barbatanas incansáveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sábios, num trejeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a ciência - já naquela época se enchia a boca com a ciência - que a ciência nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.

"O Pescador Hurashima", Wenceslau de Moraes

(Wenceslau de Moraes nasceu no dia 30 de Maio de 1854. Morreu em 1929.)

Vida de cão 84

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Se souberem de Fafe dos Brasileiros, digam-me

A iniciativa cultural Fafe dos Brasileiros desapareceu da agenda do sítio oficial da Câmara de Fafe. Ainda há dois ou três dias lá estava, aparentemente marcada para de 10 a 14 de Junho, mas de repente desapareceu, evaporou-se sem deixar rasto. Sei disto porque andava há que tempos, diariamente, à cata do programa, que me era sempre prometido para mais tarde. Agora, de acordo com a agenda do sítio oficial da Câmara de Fafe, o que há naquela semana são duas feiras semanais (chamam-lhes feiras tradicionais), uma na quarta-feira propriamente dita e outra, para não perder o gás, logo na quinta-feira impropriamente dita. É uma semana extraordinário em Fafe e vai ser uma fartote de compras nestes tempos de vacas gordas. Para guardar lugar, a minha mãe diz que vai dormir na feira de quarta para quinta.
No que diz respeito a informação, o novo sítio oficial da Câmara de Fafe é tão de fiar como o antigo. Isto é: nada. Fazendo uma comparação mais detalhada, o novo sítio oficial da Câmara de Fafe parece-me, em relação ao outro, eventualmente mais caro, evidentemente mais colorido, mais folclórico, porém mais confuso, desactualizado, paradoxalmente mais amador e, sobretudo, razoavelmente analfabeto. Valha-me Deus: "sinópse" escreve-se sinopse e "femenino" escreve-se feminino, e isto são apenas dois por-exemplos que saltam logo à vista.
Não sei se a verba destinada à iniciativa cultural Fafe dos Brasileiros foi toda gasta nos sacos plásticos para o Rali de Portugal, e agora não há dinheiro não há vícios; não sei se nunca esteve pensada a iniciativa cultural Fafe dos Brasileiros para este ano de 2015 e a agenda estava mal; não sei se a agenda estava bem e se se trata somente de uma daquelas partidas que os computadores costumam pregar a quem não tem muito jeito para lhes mexer, como eu. Mas eu gostava de saber: há Fafe dos Brasileiros ou não?

P.S. - O novo logótipo do município é melhor do que o anterior.

Caminho 22

Foto Hernâni Von Doellinger

A minha sogra, eu, o canídeo e a porca

Todos os santos dias, não sei se por promessa, há um canídeo que, com vossa licença, caga ao portão da minha sogra. Todos os santos dias. Fica ali aquele montinho de merda, com vossa licença, às vezes dois ou três montinhos de merda, com vossa licença, ou quatro ou cinco, passeio adiante e organizados em filinha de pirilau, porque o referido canídeo deve ser animal para comer à tripa-forra e evacua, com vossa licença, como verdadeiro cagante andante.
A minha sogra pensava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que, com vossa licença, aqueles saralhotos eram evidentemente, com vossa licença, saralhotos de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e dissesse eu o que dissesse estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e hoje apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trago ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora...

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Caminho 21

Foto Hernâni Von Doellinger

José Craveirinha 2

Grito negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.


"Karingana Ua Karingana", José Craveirinha

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Vida de cão 83

Foto Hernâni Von Doellinger

O cardeal Parolin e a derrota da humanidade

O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, não é por acaso que se chama assim: Parolin. Segunda figura da vetusta hierarquia da Igreja Católica, espécie de primeiro-ministro de um estado de almas (e só não digo que é o braço-direito do Papa para não ser mal interpretado), o cardeal italiano, que, ao contrário da maioria dos cardeais, até tem idade para ainda ter juízo, considera que a vitória do "sim" no referendo sobre a legalização do casamento homossexual na Irlanda é "uma derrota para a humanidade".
Eu acho que o cardeal Parolin - repito, Parolin - exagera um bocadinho a propósito de derrotas para a humanidade, manifestando talvez uma certa e determinada ignorância paroquial que fica mal a um príncipe e candidato a doutor da Igreja. Ou então, e que Deus lhe perdoe, o cardeal Parolin - repito, Parolin - está apenas a ser hierarquia da Igreja, com a cegueira e a má-fé do costume.
Espero ansioso pela palavra de Francisco, para perceber se a toléria é geral.

Mas à dúzia é mais barato

Foto Hernâni Von Doellinger

Três-jogadores-três do Rio Ave assinaram ontem pelo Benfica. Chamam-se Ederson, Diego Lopes e Hassan, e são, respectivamente, guarda-redes, médio e avançado. Está tudo acertado, só falta definir em que clubes é que eles vão jogar na próxima época.

Caminho 20

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Teixeira Gomes

Não há palavras que descrevam as maravilhas do seu corpo, a sua carne rosada e firme desmaiando, nas curvas, no tom mate de açucena; os pés de estátua grega; o ventre polido e retraído, nascendo das coxas roliças como um escudo de prata fosca e partindo-se, no remate, para inflar nos dois agudos pomos a que as vacilantes chamas do fogão davam reflexos iriados; e os longos braços a um tempo frágeis e marmóreos!...
Os meus lábios cobriam sofregamente a carne que aparecia enquanto as mãos teciam em volta do seu corpo uma apertadíssima rede de carícias...


"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes

(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Vida de cão 82

Foto Hernâni Von Doellinger

Ruben A. 2

Desintegro-me. Custou-me sempre participar do colectivo. Apoquenta-me a minha narrativa, sobretudo pela veracidade mordaz de que se revestem todos os meus actos. Tento disfarçar com imagens. Puxo as sarjetas da alma, guindastro pelas roldanas do meu vaivém um peso de sentimentos misturados com banalidades do dia a dia. Não vou à praça fazer compras. Recuso-me terminantemente a tomar uma laranjada, ou um eléctrico. Deixo que as pessoas olhem para mim, de caras, com a minha imagem espantada, bem visível à vista desarmada. Mesmo na loja que na Baixa me queria vender um binóculo por tuta-e-meia, eu recusei em absoluto essa alavanca trancada no rosto. Fui sempre pelo que é natural, tanto em animais, como na cama. A memória recorda factos, é parte de uma história que se ensinava no século XIX e ainda hoje alegra os meninos do Liceu. Lembro futuros melhores, de fava-rica, camisas arregaçadas, terminações com o mesmo dinheiro de muitas sortes grandes, banhos em pelote, mulheres de tremer os alicerces, terramotos que correm cheios de saudade, prenhes de desejos, satisfações imberbes que nunca se cumprem. Arrepio-me, agora, já, sem saber bem porquê, uma viagem que sobe e desce pela espinha dorsal. Olho para mim. Uma radiografia perfeita, bem chapada. Tudo foge ao meu controle. Fico destituído de mim, como desmobilizado de uma guerra em que não tomei parte.

"O Outro Que Era Eu", Ruben A.

(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Rali visto pelo umbigo do município de Fafe

                                                                                          Foto MUNICÍPIO DE FAFE

Diz que ontem estiveram "dezenas de milhares de pessoas" em Fafe para verem o Rali de Portugal. Diz que foi um espectáculo, uma emoção. Diz que foi uma coisa bonita de se ver, até na televisão. O Facebook da autarquia também lá esteve, e dá-nos agora a frio, em ponderadas fotografias, uma reportagem completa dos acontecimentos, colocando as coisas nos seus devidos lugares: meia dúzia de gatos pingados, uma bandeira da Finlândia, um carro que não sabe voar e, claro, o principal da festa, o que verdadeiramente interessa: o presidente e o vice-presidente da Câmara, Raul Cunha e Pompeu Martins, respectivamente e da esquerda para a direita, que têm uma descontracção natural para estas coisas que a mim, que sou um complexado irremediável, até me mete raiva. Parece-me, no entanto, que suas excelências ainda não começaram a dieta. Eu também não.

domingo, 24 de maio de 2015

Senhor de Matosinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

Os simples à hora dos telejornais

António Marinho e Pinto abriu esta manhã os trabalhos da Assembleia Nacional de Filiados do Partido Democrático Republicano (PDR) homenageando a simplicidade, conta o jornal Público. Cai-me bem isto de chamarem "trabalhos" a uma coisa que é só conversa. O PDR (como, aqui há uns anos, o PRD) não é como os outros. "Quem espera espectáculo, engana-se, vamos trabalhar", disse o líder que antes de o ser já o era.
"É ao fim da tarde, à hora dos telejornais, que o líder do PDR fará o que ele próprio definiu, ao Público, como uma declaração política importante."
À hora dos telejornais exactamente. Porque Marinho e Pinto e o PDR não querem espectáculo.

Ferreira de Castro 3

Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos. "Piloto" estugou o passo. O caminho estava cheio de tentações, de paragens obrigatórias, estabelecidas por todos os cães que passaram ali desde que Manteigas existia, desde há muitos séculos. Forçado a deter-se, ele regava, à esquerda e à direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visível modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroço. Por fim, lobrigou-o. Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de "Piloto"; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão. Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra. Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos, e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo:
- Olha o "Piloto"! O meu "Piloto"!

 "A Lã e a Neve", Ferreira de Castro

(Ferreira de Castro nasceu no dia 24 de Maio de 1898. Morreu em 1974.)

sábado, 23 de maio de 2015

Quantas pranas tem uma rana?

                                         Foto Hernâni Von Doellinger

O meu avô Bernardino Neques, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria, tinha o seu lado musical. Desunhava-se satisfatoriamente com a concertina e o acordeão, e já velhinho veio-lhe a mania do violão, lembro-me que com alguma falta de jeito, Deus me perdoe se estou a ser injusto. Esqueçamos, porém, o violão, o acordeão e a concertina, que foram só para meter conversa. Tornemos aos bombos, à caixaria.
O Neques do meu avô Bernardino não era de baptismo. O verdadeiro nome do meu avô de Basto era Amigo Pereira - assim lhe chamava toda a gente, e suponho que não é preciso dizer mais nada para que se perceba de que marca era o homem. A alcunha que ficou famosa veio-lhe do tempo de moço, contava-se, quando rufava a bom rufar na caixa, honesto instrumento por onde começou na arte. E tocava naquele ritmo que ele gostava de explicar como neque-neque-neque, neque-neque, neque-pum. Neques, pois.
O meu avô era apaixonante. Obviamente Revelhe, por causa do meu pai e por bom gosto natural. E o toque de caixa, para o Amigo Pereira, tinha ciência, solfejo. Gostava de perguntar-me, por exemplo, Quantas pranas tem uma rana?, como se estivéssemos a elaborar sobre fusas e semifusas. Eu dizia que não sabia, que era o que o velho Neques queria ouvir, para logo a seguir me ensinar, matreiro e mais uma vez, Conta-as, rapaz: rana-catrapana-catrapana-pana-pum; quantas são?
Já não há bernardinos assim. E faz-me diferença. Pum.

(Texto escrito e publicado no dia 2 de Abril de 2014. Junto-lhe hoje fotografia, aproveitando a amostra do Senhor de Matosinhos que me passou há bocado à porta de casa.)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Holmes, Sherlock Holmes

- O meu cérebro - disse Sherlock Holmes - revolta-se contra a estagnação. Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais abstruso criptograma, ou a mais intrincada análise, e estarei no meu elemento. Detesto a rotina monótona da existência. Preciso de ter a mente em efervescência. É por isso que escolhi esta minha profissão especial, ou melhor, criei-a, porque sou o único no mundo a exercê-la.- O único detective particular? - perguntei, erguendo uma sobrancelha.
- O único detetive particular consultivo - redargüiu ele. - Sou o mais alto tribunal de apelação em matéria de pesquisa criminal. Quando Gregson, ou Lestrade, ou Athelney Jones se vêem em maus lençóis, como aliás é o seu estado normal, o assunto é-me apresentado. Examino os dados como um técnico e dou um parecer de especialista. Não procuro honras nesses meus trabalhos, O meu nome não aparece nos jornais. O trabalho em si, o prazer de encontrar um campo para as minhas faculdades específicas, é a única recompensa que pretendo. De mais a mais, você já teve algum contacto com os meus métodos de trabalho no caso de Jefferson Hope.
- É verdade - confirmei com entusiasmo. - E impressionaram-me de tal modo que até condensei o assunto numa pequena brochura com o título meio fantástico de Um Estudo em Vermelho.
Holmes abanou a cabeça tristemente.
- Passei os olhos por ela - disse ele. - Sinceramente, não posso felicitá-lo. A investigação é, ou devia ser, uma ciência exacta e, como tal, tratada de maneira fria e sem a menor emoção. Você procurou dar-lhe certo colorido romântico, o que produz o mesmo efeito de uma história de amor ou de um rapto transformados na quinta proposição da geometria euclidiana.

"O Signo dos Quatro", Sir Arthur Conan Doyle

(Arthur Conan Doyle, médico e escritor britânico, famoso criador do ainda mais famoso detective Sherlock Holmes, nasceu no dia 22 de Maio de 1859. Morreu em 1930.)

Vida de cão 81

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 21 de maio de 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O polícia mau e o polícia bom

Ontem a notícia era o polícia mau. Hoje a notícia é o polícia bom. Eu sei porque é que isto se faz, para quem se faz e como é que se faz. Eu já fiz, mas não adianta explicar. Só ia prejudicar o negócio, e o negócio já anda pelas ruas da amargura...

Lugares-(in)comuns 107

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de maio de 2015

Festas do Mártir S. Sebastião 2015


São, a bem dizer, a festa da minha rua. A minha festa. As "Grandiosas Festas", e fazem jus à pompa do nome, em honra do Mártir S. Sebastião, ou, simplesmente e como eu gosto mais, a Festa dos Pescadores de Matosinhos. Este ano, nos dias 10, 11 e 12 do próximo mês de Julho, com epicentro na Lota do Pescado do Porto de Leixões, como manda a tradição. Mais informação e programa, aqui e aqui.

Algo está a mudar na STCP, não sei se para melhor

Foto Hernâni Von Doellinger

O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Ora bem: os trabalhadores da STCP entram hoje em greve. E não vai haver 500 para ninguém. Quer-se dizer que vou ter de andar duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevar, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pela sua greve. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", ficámos também a saber que, pelas contas da Comissão de Trabalhadores, a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Por falar em baile. Outro assunto é a greve dos pilotos da TAP. Que podem ir à merda, os pilotos grevistas, mais a administração da alegada transportadora aérea nacional e mais o Governo que não soube ter mão no caso. À merda, todos! Mas um momento: antes de se sentaram à mesa, gostaria que algum dos comensais me explicasse como é que uma empresa que tem 35 milhões de euros de prejuízo por causa de dez dias de greve não consegue ter mil e duzentos e quarenta e dois milhões e meio de euros de lucro nos outros 355 dias do ano.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface.

(Este texto foi escrito e publicado há uma semana, no dia 11 de Maio. Hoje vi que alguma coisa mudou. O 500 continua a andar no horário que lhe apetece, suprime-se sem aviso prévio nem dó nem piedade do utente antecipadamente pagante, desaparece para parte incerta sobretudo no sentido Porto-Matosinhos, e esta não é, portanto, a novidade. A notícia é que o motorista do 500 vinha guardado por dois robustos seguranças - empresa nova, pareceu-me -, que, honra lhes seja feita, para além de outros préstimos que sinceramente não catrapisquei, estorvavam a entrada dos passageiros com assinalável competência.)

Os portugueses, as notícias e o Facebook

Quando os portugueses procuram notícias na Internet, vão ao Facebook, diz um estudo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), de acordo com a rádio Antena 1. Ora bem: eu já li e ouvi chamar muitas coisas àquilo que as portuguesas e os portugueses realmente procuram no Facebook, mas "notícias", confesso, é a primeira vez. Portanto, não me fodam! Quero dizer: não me "noticiem"...

Mário de Sá-Carneiro 3

O Lord

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(- Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)

Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas -
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...

(- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido
- E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)

"Poesia", Mário de Sá-Carneiro

(Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890. Morreu em 1916.)

A ver navios 49

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Xosé Filgueira Valverde

O escolante de Illobre viña todos os seráns deprenderme a doutrina para me ir confesar. Un día co gallo dos mandamentos pregunteille:
- Don Xabiel, que é fornicar?
Don Xabiel, aquel vello velliño bo e sabedor, que endexamais tivo segredos para min, que decote respondeu ás miñas demandas, olloume moito cos seus olliños pequeneiros e dixo dubidando:
- Fornicar... é escoitar o asubío dun paxaro estando nun sermón...
Aquela noite, cando don Xabiel falou cos meus pais, mamá estaba cavilosa e o meu pai riu ás gargalladas.
De alí a dous días houbo misión en Lamas, leváronme alá. O frade pregaba no adro subido ao chanzo do cruceiro. Miña nai puxo a súa cadeira baixo as pólas do castiñeiro vello. O frade falaba no cruceiro, e no castiñeiro asubiaba un paxaro. Eu fuxía de oír ao paxaro e arelaba escoitar ao frade, mais tanto fuxín da cántiga que rematei pondo atención nela.
Así foi como eu cometín o meu primeiro pecado.

"Os Nenos", Xosé Filgueira Valverde 

(Xosé Filgueira Valverde é o homenageado do Dia das Letras Galegas 2015, que hoje se assinala. Nasceu no dia 28 de Outubro de 1906 e morreu em 1996.)

Caminho 18

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 17 de maio de 2015

Desta vez o Correio da Manhã acertou

O Correio da Manhã anuncia hoje em título que há "Jovens em risco no metro" do Porto. O jornal diz que
"Jovens andam na parte exterior das composições, que circulam a 80 km por hora. Primeiros casos surgiram no início do ano e estão a causar alarme."
Desta vez o Correio da Manhã fala verdade. Acertou. É só ver o texto do Tarrenego! de 2 de Abril de 2015, com fotografia e tudo. Esta:

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Um boa conversa tem muito que se lhe diga

- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Oh! meu amor, arrebenta-me toda...
- Arrebentando, oh! minha querida, mas era preciso desconversar?...

Caminho 17

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 16 de maio de 2015

Ronald de Carvalho 2

Sabedoria
 

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!


Faze da tua realidade
uma obra de beleza


Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece…


"Epigramas Irônicos e Sentimentais", Ronald de Carvalho

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

Lugares-(in)comuns 106

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Jesus é o melhor treinador do mundo, diz o bruxo

Falando de Jesus. Fernando Nogueira, o famoso Bruxo de Fafe, confidente especial do jornalista Eugénio Queirós, diz que "o Benfica tem o melhor treinador do mundo". E tem razão o bruxo, graças a Deus. Quantos campeonatos ganharam até hoje treinadores como Buda, Maomé ou até o teutónico Lutero?

Caminho 16

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Lenda Cayo Carpo 2015


Matosinhos leva à cena, mais uma vez, a Lenda Cayo Carpo. Recriação histórica e feira romana, de 29 a 31 de Maio, na Praia de Matosinhos, junto ao Senhor do Padrão. Mais informação e programa, aqui e aqui.

Lima Barreto 3

O grande debate que provocara na Câmara o projeto de formação de um novo Estado na federação nacional apaixonou não só a opinião pública, mas também (é extraordinário) os profissionais da política.
Em torno do projeto, interesses de toda a ordem gravitavam. Um grande número de cargos políticos e administrativos iam ser criados; e, se bem que a passagem do projeto de lei não fosse para já, os chefes, chefetes, subchefes, ajudantes, capatazes políticos se agitavam e pediam, e desejavam, e sonhavam com este e aquele lugar para este ou aquele dos seus apaniguados.
De resto, além desse resultado palpável do projeto, havia nele outro alcance que só os profissionais da política entreviam. Com a criação de um novo Estado nasceria naturalmente uma nova bancada da representação nacional no Senado e na Câmara; e o partido dominante, republicano radical, temia não eleger a totalidade dela.
Bastos, o seu poderoso e temido chefe, que detinha o domínio político do país, hesitava em apoiar ou contrariar francamente o projeto e, a respeito, só tinha frases vagas e gestos de duvidoso sentido. Os seus asseclas, os muitos que lhe obedeciam cegamente, sem a palavra devida, não sabiam o que dizer; e os mais atarantados eram os seus jornalistas e parlamentares. Uns, apoiavam; outros, combatiam; outros, ainda, ora apoiavam, ora combatiam.

"Numa e a Ninfa", Lima Barreto

(Lima Barreto nasceu no dia 13 de Maio de 1881. Morreu em 1922.)

A ver navios 48

Foto Hernâni Von Doellinger

Raimundo Correia 2

Amor e vida

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa que, crendo-o, crera-se ofendida.


A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!


Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!


E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!


"Sinfonias", Raimundo Correia

(Raimundo Correia nasceu no dia 13 de Maio de 1859. Morreu em 1911.)

Vida de cão 80

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 12 de maio de 2015

Campeões do mundo de cálculo mental e renal

Diz o Público: "João Silva Bento, 13 anos, estudante do 7.º ano na Escola Secundária Manuel Fernandes, em Abrantes, sagrou-se campeão mundial de cálculo mental pelo segundo ano consecutivo, tendo obtido o recorde mundial da prova deste ano."
Digo eu: Manuel Trindade Anastácio, 65 anos, reformado dos Caminhos de Ferro, no Entroncamento, sagrou-se campeão mundial de cálculo renal pelo quarto ano consecutivo, batendo o recorde absoluto da prova, ao apresentar-se a concurso com uma magnífica pedra do tamanho de meia broa de Avintes. Há seis anos que Manuel Trindade Anastácio se encontra na lista de espera para intervenção cirúrgica.

P.S. - Parabéns ao João, que é fino como um alho e tem cara de bom menino. Que seja.

A incompetência de Lopetegui

Estão a ver como não era assim tão difícil o FC Porto ter ido a Munique eliminar o Bayern? Porque é que o Julen Lopetegui Argote, vulgo Litopaqui, aliás Giroflex, não meteu lá na frente o Suárez, o Neymar e o Messi? Esteve a guardá-los para quê? Para os dar fresquinhos ao Barcelona? Vê-se logo que o gajo é... basco.

Feira Mostra de Paredes de Coura 2015


Nos dias 12, 13 e 14 de Junho, edição número 22 da Feira Mostra de Produtos Regionais do Alto Minho, no centro da vila de Paredes de Coura. Ver programa aqui.

Aqui há gato 13

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A minha homenagem aos pilotos da STCP

Foto Hernâni Von Doellinger

O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Ora bem: os trabalhadores da STCP entram hoje em greve. E não vai haver 500 para ninguém. Quer-se dizer que vou ter de andar duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevar, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pela sua greve. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", ficámos também a saber que, pelas contas da Comissão de Trabalhadores, a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Por falar em baile. Outro assunto é a greve dos pilotos da TAP. Que podem ir à merda, os pilotos grevistas, mais a administração da alegada transportadora aérea nacional e mais o Governo que não soube ter mão no caso. À merda, todos! Mas um momento: antes de se sentaram à mesa, gostaria que algum dos comensais me explicasse como é que uma empresa que tem 35 milhões de euros de prejuízo por causa de dez dias de greve não consegue ter mil e duzentos e quarenta e dois milhões e meio de euros de lucro nos outros 355 dias do ano.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface.

(O episódio do motorista, do telemóvel e da sandes é verdadeiro. Mas não se passou no autocarro da fotografia, nem naquele dia, nem naquele sítio, nem sequer naquele sentido.)

domingo, 10 de maio de 2015

Quando o telefone toca no país dos cagarolas

Foto Hernâni Von Doellinger

O telefone toca, a gente atende num susto, e o que é que faz? A gente, quero dizer nós todos, os portugueses de um modo geral. Posto isto - então o que é que a gente faz? A gente agarra-se ao telefone com as duas mãos numa aflição que Deus me livre, e pergunta para o outro lado, aos gritos e falta de ar: - Estou?! Estou??!! Estou???!!! A gente tem medo de não estar. Precisamos de confirmação. Ó insegurança! Ó angústia existencial! Ó compinchas caguinchas! Que é das armas e dos barões assinalados? Que é dos heróis do mar, nobre pobre, nação valente?
E nisto estamos. Ou não estaremos?

sábado, 9 de maio de 2015

As idiossincrasias culturais da Queima das Fitas 2

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Caminho 15

Foto Hernâni Von Doellinger

Ascenso Ferreira 3

Minha escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!


À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... - A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
- O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
- Quantas orações?
- Qual é o maior rio da China?
- A 2 + 2 A B = quanto?
- Que é curvilíneo, convexo?
- Menino, venha dar sua lição de retórica!
- "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
- Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
- Agora, a de francês:
- "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
- Basta.
- Hoje temos sabatina...
- O argumento é a bolo!
- Qual é a distância da Terra ao Sol?
- ?!!
- Não sabe? Passe a mão à palmatória!

- Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.


"Catimbó", Ascenso Ferreira

(Ascenso Ferreira nasceu no dia 9 de Maio de 1895. Morreu em 1965.) 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Guerra Colonial, contas por saldar


O Froufe lá continua com o seu apostolado, Deus o abençoe, e já ganhou assinatura aqui no Tarrenego! Portanto, cá vai mais uma vez: logo à noite, a partir das 21h30, na Vai Avante, em São Pedro da Cova, palestra/debate com o jornalista Jaime Froufe Andrade, que foi alferes ranger em Moçambique e é autor do livro "Não sabes como vais morrer". Haverá música, na guitarra e na voz de Orlando Mesquita - o do Bando do Rei Pescador, exactamente. A entrada é livre.

Vida de cão 79

Foto Hernâni Von Doellinger

Profundo 23

Tantas vezes vai o cântaro à fonte, que qualquer dia tem de se meter água da companhia em casa.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Caminho 14

Foto Hernâni Von Doellinger

Feiras Francas de Fafe 2015


Feiras Francas de Fafe, de 14 a 17 de Maio. Corrida de cavalos, feira rural, concurso pecuário, animação de rua, música popular. Mais informação e programa, aqui e aqui.

Luiz Pacheco 3

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado:

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!


Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto.


"O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", Luiz Pacheco

(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)  

Lugares-comuns 221

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 6 de maio de 2015

É sempre bom estarmos informados

Passei sem querer pelo Correio da Manhã e fiquei a saber: "Ronaldo defende menino japonês", "Irina e Bradlev vistos aos beijos", "U2 actuam em Portugal em 2016", "Pai de Mourinho tem derrame cerebral", "Veja Timberlake mascarado de lima", "Beyoncé em novas fotos sensuais", "Fábio Paim suspeito de violação", "Cristina Ferreira desmente relação", "Rainha acaba de conhecer a neta". É sempre bom estarmos informados.

Estou mesmo a ver o filme 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Campos de Figueiredo

Momento lírico

Dá-me as tuas mãos, e vamos,
Calados, pela estrada,
Sob a bênção dos ramos
E as flores da madrugada.

Onde houver uma fonte,
Paremos a beber
As águas de outra fonte
Ainda por nascer.

Onde houver um jardim,
Entremos, de mãos juntas,
Mas às rosas e aos lírios
Não façamos perguntas.

Ouçamos os perfumes,
No zumbir das abelhas,
E colhamos apenas
Duas rosas vermelhas...

E guardemos as rosas,
Só para desfolhar
Nas mãos das madrugada
Que o céu poisa no mar.

Campos de Figueiredo

(Campos de Figueiredo nasceu no dia 6 de Maio de 1899. Morreu em 1965.)

terça-feira, 5 de maio de 2015

As idiossincrasias culturais da Queima das Fitas

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

LeV de volta a Matosinhos


"Mais importante que o destino é a viagem". O festival LeV Literatura em Viagem está de volta a Matosinhos, de 8 a 11 de Maio. O mote desta nona edição: "Conflito, ontem e hoje". A conferência inaugural, pelas 21h30 da próxima sexta-feira, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, estará a cargo de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.
Falarão também, nos dias seguintes, Richard Zimler, Kim Young-Há, Paolo Giordano, Paloma Díaz-Mas, Tessa de Loo, Cătălin Dorian Florescu, Marc Pastor, Llucia Ramis, Artur Domoslawski, Joan Miquel Oliver, Pedro Abrunhosa, Luís Represas, Gonçalo M. Tavares, Francisco José Viegas, Rui Tavares, Joel Neto, Dulce Maria Cardoso, Rui Cardoso Martins, Rui Vieira Nery e João Pereira Coutinho. O escritor Mário Cláudio será entrevistado.
Debates, música, exposições e lançamento de livros fazem o resto, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca. Marcar na agenda, portanto: de 8 a 11 de Maio, em Matosinhos. Programa completo e mais informação, aqui, aqui e aqui.

Lugares-comuns 220

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Branquinho da Fonseca

Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região.
Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto.


"O Barão", Branquinho da Fonseca

(Branquinho da Fonseca nasceu no dia 4 de Maio de 1905. Morreu em 1974.)

A ver navios 47

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 3 de maio de 2015

Frei Agostinho da Cruz 2

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.


Frei Agostinho da Cruz

(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)

A ver navios 46

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 2 de maio de 2015

Luís Amado Carballo

Saudade

Meniña, pecha a fiestra,
non deixes á noite entrar;
para tebras ben abondan
estas que comigo van.
   O vento anda espenuxado
oubeando como un can,
e na zanfona do bosque
salouca un tolo cantar.
   Que arelas tan fondas sinto
de deixal-a alma vagar,
de perdel-o corazón
como unha dorna no mar.
   Este fondo mal qu'eu teño
ninguien m'o pode sandar;
a miña alma no ensono
por vieiro iñorado vai.
   É o herdo da nosa raza
esta mágoa de ideal;
sentir remotos degoiros,
chorar sin saber o mal.
   Meniña... pecha a fiestra,
non deixes á noite entrar;
para tebras ben abondan
estas que comigo van.


"Proel", Luís Amado Carballo

(Luís Amado Carballo nasceu no dia 2 de Maio de 1901. Morreu em 1927.)

Caminho 13

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vá lá ser enganador ao caralho!

"Não há direito, tanta falta de consideração pela economia do País, tanta falta de consideração pela vida dos clientes da empresa, tanta falta de consideração pelos passageiros, tanta falta de consideração pelo turismo". Eu, que só ando de autocarro e metro, quando há autocarro e metro, estou de acordíssimo com tão veementes críticas aos pilotos da greve na TAP e se calhar até seria ainda mais filho da puta no comentário. Porém: quem assim fala entre aspas é Paulo Portas. O irrevogável Portas, a criatura que tanta consideração tem pela economia do País, pelas economias dos portugueses, pelos pobres, órfãos e viúvas. E pelo turismo. Sobretudo pelo turismo subaquático. Não tem direito.

Senhor de Matosinhos 2015


Festas da Cidade de Matosinhos. De 8 de Maio a 1 de Junho. Informação e programa completo, aqui.

José de Alencar 3

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.
Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.
Era rica e formosa.
Duas opulências, que realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.
Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.
Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.
Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.
Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.
Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.
Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.
A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas inclinações ou de seu capricho; e por isso todas as adorações se iam prostrar aos próprios pés do ídolo.
Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.
Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão da alma.

"Senhora", José de Alencar

(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.) 

Lugares-comuns 219

Foto Hernâni Von Doellinger