domingo, 31 de janeiro de 2016

Atequando, no TUP


O Teatro Universitário do Porto (TUP) apresenta "Atequando", com texto e encenação de Raquel S., no palco da Praça Coronel Pacheco, n.º 1. De 11 a 20 de Fevereiro, e de terça a domingo, sempre às 22 horas. Mais informação, aqui.

A hora das gaivotas 7

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 30 de janeiro de 2016

Castelao 3

Foi unha noite de luar cando saín da cova por primeira vez. Traballiño custoume desentolle-las pernas e cando me erguín e botei a miña cachola fóra da terra, fiquei pasmado... Aquel ollo de vidro que de nada me servira na vida sírveme agora pra mirar.
Tolo de contento quitei o ollo, dinlle catro bicos e volvino a pór no seu sitio.
Dun pulo brinquei da cova e fun cara o rueiro dos esqueletes.
Os esqueletes son tan parvos como as persoas. Abonda decir que non pensan máis que en beilar.
Pra min tódolos esqueletes son o mesmo. Pásame niste mundo de ósos o que me pasaba no outro cos negros, que todos parecíanme iguales. En troques iles, antre si, coñécense moi ben. Debe sere porque iles son cegos i eu vexo.
Farto de ollar aos meus compañeiros beilando coma se fosen ósos ao son da “Danza macabra” de Saint Säens afasteime do rueiro e reparei nun esquelete que estaba sentado nunha campa e que tiña a calivera ladeada (eispresión de tristura e melancolía niste mundo). Chegueime a il e fitei como na caixa dos cadriles tiña acochado un esquelete pequerrechiño. Axiña decateime que era un esquelete de muller e inquirín garimoso.
- Será vostede algunha muller das que mataron en Osera, Nebra ou Sofán?
- Non, señor, non - respondeume -. Eu morrín de tristura! 

"Un Ollo de Vidro. Memorias dun Esquelete", Castelao 

(Castelao nasceu no dia 30 de Janeiro de 1886. Morreu em 1950.)

A ver navios 67

                                                                                         Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Barão de Itararé

Conselho médico (Como devemos tomar nossos remédios)

Quando estamos doentes, afinal não temos outro remédio senão tomar remédio.
O remédio, aliás, sempre faz bem. Ou faz bem ao doente que o toma com muita fé; ou ao droguista que o fabrica com muito carinho; ou ao comerciante que o vende com um pequeno lucro de 300 por cento.
Mas, apesar do bem que fazem, devemos convir que há remédios verdadeiramente repugnantes, que provocam engulhos e violentas reações de repulsa do estômago.
Como devemos tomar esses remédios repugnantes? Aí está o problema que procuraremos resolver para orientar os nossos dignos e anêmicos leitores.
O melhor meio de vencer as náuseas, quando temos que ingerir um remédio repelente, consiste em recorrer à lógica dos rodeios, adotando os métodos indiretos, até chegar à auto-sugestão, transformando assim o remédio repugnante numa coisa que seja agradável ao paladar. Numa palavra, devemos tomar o remédio com cerveja, por exemplo.
Como devemos proceder para chegarmos a esse magnífico resultado?
É indispensável comprar, antes do remédio, uma garrafa de cerveja. Depois, é necessário bebê-la devagar, saboreando-a, para sentir-lhe bem o gosto. Liquidada a primeira garrafa, pedimos outra cerveja. Esta vamos tomá-la de outra forma, também devagar, mas com a idéia posta no remédio, cuja lembrança naturalmente nos provocará asco. Para voltarmos ao normal, encomendamos uma terceira garrafa, com a qual, lembrando-nos sempre do remédio, iremos dominando e vencendo a repugnância. Na altura da quinta ou undécima garrafa, nós já estaremos convencidos de que o gosto do remédio deve ser muito semelhante ao da cerveja e, assim, já poderíamos beber calmamente o remédio como cerveja. Mas, como não temos o remédio no momento e já não temos muita força nas pernas para ir à farmácia, então continuamos a beber a infusão de lúpulo e cevada, até chegarmos a esta notável conclusão: se é possível chegar a se tomar um remédio tão repugnante como cerveja, muito mais lógico será que passemos a tomar cerveja como remédio, porque a ordem dos fatores não altera o produto, quando está convenientemente engarrafado.

"Máximas e Mínimas do Barão de Itararé", Barão de Itararé

(Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, autodenominado Barão de Itararé, nasceu no dia 29 de Janeiro de 1895. Morreu em 1971.)

Lugares-comuns 288

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Rafael Dieste

Sobre a morte de Bieito

Foi preto do camposanto cando eu sentín boligar dentro da caixa ó pobre Bieito. (Dos catro levadores do cadaleito, eu era un). Sentino ou foi aprensión miña? Entonces non podería aseguralo. Foi un rebulir tan maino!… Como a teimosa puvulla que rila, rila na noite, rila de entón no meu maxín afervoado aquel mainiño rebulir.
Pero é que eu, meus amigos, non tiña seguranza, e polo tanto - comprendede, escoitade -, polo tanto non podía, non debía dicir nada.
Imaxinade nun intre que eu dixese:
O Bieito vai vivo.
Tódalas testas dos velliños que portaban cirios ergueríanse nun babeco aglaio. Tódolos pícaros que viñan extendendo a palma da man baixo o pingotear da cera, virían en remuíño arredor meu. Apiñocaríanse as mulleres a carón do cadaleito. Escorregaría por tódolos beizos un marmular sobrecolleito, insólito:
O Bieito vai vivo, o Bieito vai vivo!…
Calaría o lamento da nai e das irmás, e axiña tamén, descompasándose, a gravedosa marcha que planxía nos bronces da charanga. E eu sería o gran revelador, o salvador, eixo de tódolos asombros e de tódalas gratitudes. E o sol na miña face cobraría unha importancia imprevista.
Ah! E se entonces, ó ser aberto o cadaleito, a miña sospeita resultaba falsa? Todo aquel magno asombro viraríase inconmensurable e macabro ridículo. Toda a arelante gratitude da nai e das irmás, tornaríase despeito. O martelo espetando de novo a caixa tería un son sinistro e único na tarde estantía. Comprendedes? Por iso non dixen nada.
Houbo un intre en que pola face dun dos compañeiros de fúnebre carga pasou a insinuación leviá dun sobresalto, coma se el estivese a sentir tamén o velaíño boligar. Mais non foi máis que un lampo. De seguida ficou sereno. E non dixen nada.
Houbo un intre en que case me decidín. Dirixinme ó da miña banda e, acobexando a pregunta nunha surrisa de retrouso, deslicei:
- E se o Bieito fose vivo?
[...]

"Dos Arquivos do Trasno", Rafael Dieste

(Rafael Dieste nasceu no dia 29 de Janeiro de 1899. Morreu em 1981.)

Lugares-(in)comuns 140

                                                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé Fernández Ferreiro

Do salto víñase falando desde había bastante tempo. Desde que fixeran o de Pazos, no mesmo río. uns vinte kilómetros augas abaixo. Pero, sobre todo, desde aquel día no que, de improviso, aparecera no lugar un land-rover verde do que baixaran uns homes descoñecidos, vestidos con cazadoras de coiro e grosas botas de goma, póndose a mirar, para un lado e opara o outro, a través duns aparellos que parecían máquinas fotográficas postas sobre un trípode. Facían anotacións nun caderno e piñan cruces bermellas nas pardes e nas laxes.
- Son os do salto - correuse de seguida por tódolas aldeas, por todo o val de Folgoso, por tódalas terras de Castrelo. - Son os de Fenosa.

"Morrer en Castrelo do Miño",  Xosé Fernández Ferreiro

(Xosé Fernández Ferreiro nasceu no dia 29 de Janeiro de 1931. Morreu em 2015.)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Estou mesmo a ver o filme 15

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

António Feliciano de Castilho 3

Cântico da noite

Sumiu-se o sol esplêndido
Nas vagas rumorosas!
Em trevas o crepúsculo
Foi desfolhando as rosas!
Pela ampla terra alarga-se
Calada solidão!
Parece o mundo um túmulo
Sob estrelado manto!
Alabastrina lâmpada,
Lá sobe a lua! Entanto
Gemidos de aves lúgubres
Soando a espaços vão!


Hora dos melancólicos,
Saudosos devaneios!
Hora que aos gostos íntimos
Abres os castos seios!
Infunde em nossos ânimos
Inspiração da fé!
De noite, se um revérbero
De Deus nos alumia,
Destila-se de lágrimas
A prece, a profecia!
A alma elevada em êxtase
Terrena já não é!


Antes que o sono tácito
Olhos nos cerre, e os sonhos
Nos tomem no seu vórtice,
Já rindo, e já medonhos,
Hora dos céus, conserva-me
No extinto e no porvir.
Onde os que amei? sumiram-se.
Onde o que eu fui? deixou-me.
Deles, só vãs memórias;
De mim, só resta um nome.
No abismo do pretérito
Desfez-se choro e rir.


Desfez-se! e quantas lágrimas
Brotaram de alegrias!

Desfez-se! e quantos júbilos
Nasceram de agonias!
Teu curso, ó Providência,
Quem o sondou jamais?
Que horas desta hora tácita
Me irão desabrochando?
Quantos nos fez cadáveres
Num leito o sono brando!
Vir-me-ão com a aurora próxima
As saudações? os ais?


Se o penso, tremo, aterro-me.
Porém, se ao Pai Supremo
Remonto o meu espírito,
Exulto; já não tremo,
A alma lhe dou; reclino-me
No sono sem pavor.

Chama-me? ascendo à pátria;
Poupa-me? aspiro a ela.
Servir-te! ou ver-te, e amarmo-nos!...
Que sorte, ó Deus, tão bela!
Vem!, cerra as minhas pálpebras,
Virgem do casto amor!


António Feliciano de Castilho

(António Feliciano de Castilho nasceu no dia 28 de Janeiro de 1800. Morreu em 1875.)

Lugares-comuns 287

                                                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O cão, essa espécie de Facebook

O cão é, desde tempos imemoriais, uma das mais consistentes artimanhas do homem para a queca. Está cientificamente provado, todos os dias vejo disso.
Quem tem tesão compra um cão, diz o povo e com razão. Porque o animal - aflito, ziguezagueante, ganinte, de orelhas, rabo e tudo arrebitado -, parecendo embora que sai à rua em busca desesperada por parceira ou parceiro de quatro patas onde possa alivar o stresse, vem mas é tratar do cio do dono. Ou da dona. Por procuração.
Largado à frente, sem trela, "Vai, Corisco, vai, arranja-me uma gaja! Um gaja boa!", o cão é um batedor sexual para prazeres alheios. Evidentemente tem que se entender com o outro animal, mas isso é truque, pretexto para o dono chegar à dona, como todos sabemos, e depois eles, dona e dono, ou dono e dono, ou dona e dona, depois de conversarem resumida ou detalhadamente sobre raças e rações, que se entendam e se acamem. E muitas vezes entendem-se e acamam-se. Olhemos à nossa volta, sem falsos pudores: quantos namoros e casamentos, que nós tenhamos conhecimento ou desconfiemos, não foram intermediados por cães? Quantos engates e quantas pinocadas avulsas!...
Passear o cão, é assim que se diz, mas querendo dizer outra coisa. Há até quem dê treino específico ao cão, para loiras ou morenas, gordas ou magras, inteligentes ou burras, e assim sucessivamente e vice-versa. É verdade, ele há cães especialistas. Cães de um certo tipo de caça.
O cão é, portanto, um alcoviteiro. Mas já foi mais, no tempo em que não havia Facebook. No tempo em que se mandava uma cadela ao espaço e a cadela chamava-se Laika. Hoje chamar-se-ia Like. É. As chamadas redes sociais na internet são agora, particularmente para casados, o principal móbil do engate, o menu do sexo à mão de semear, e esta nova realidade veio prejudicar sobremaneira os cães, cada vez mais substituídos, abandonados e abatidos, por aparentemente já não serem precisos.
Correndo o risco de fazer um título à Correio da Manhã, eu diria que o Facebook está a matar o cão. Aos poucos. E, todavia, acho que compreendo esta paulatina porém irreversível substituição do "animal doméstico" pela "aplicação social", porque a verdade é só uma: comprar ou adoptar um cão dá provavelmente mais trabalho e despesa do que criar um perfil no Facebook, sendo que o resultado final é o mesmo. Nestes tempos conturbados, o meu mais descarado elogio vai, pois, para as almas caridosas, afogueados adúlteros, que acumulam cão e Facebook, pelo sim e pelo não, e só temos que lhes agradecer, em nome dos animais.
Salvemos o cão! Porque ainda há algumas diferenças a considerar entre o cão e o Facebook - a não ser que Facebook seja o nome do cão. Para além de que o Facebook, o da internet, tem aquele perigo (há casos!) de a mulher andar a pôr os cornos ao marido e o marido andar a pôr os cornos à mulher - cada qual com o seu perfil secreto, mais ou menos falso e sobretudo "criativo" -, até ao dia em que se engatam como desconhecidos e depois se encontram para o que já sabemos. É então que descobrem que realmente... foram feitos um para o outro. 

Ángel Lázaro

Galicia, verde y triste
 
Galicia, verde y triste, madre,
vengo del sol,
vengo del ancho campo tropical
- calina, fuego, resplandor -,
y te encuentro llorando tu lluvia
mansa como una bendición.


Galicia, verde y triste,
Melancolía como un adiós,
¡cómo el alma se aniña al recobrarte!
Méceme en tu regazo acogedor.


La nieblas que se prenden en tus pinos
se acuerdan con mi corazón,
y ese prado de fresco terciopelo
es la caricia que añoraba yo.


Úngeme con tu lluvia el rostro;
que el pecho me traspase una canción,
una de esas canciones tuyas
que tienen lágrimas en la voz
y que viene de un soto, o de un molino
o del otero donde está un pastor…


Galicia, tú encendiste mis mejillas:
mira mi joven palidez de hoy;

y me diste un alma limpia y soñadora:
¡el alma se salvó!


Méceme el alma; es tuya;
cántale una canción,
una de esas canciones suaves
que tiene un lamneto y un temblor,
una de esas canciones que yo llevo
dormidas en el corazón.


"Antología Poética", Ángel Lázaro

(Ángel Lázaro Machado nasceu no dia 27 de Janeiro de 1900. Morreu em 1985.)

Vida de cão 125

                                                                                          Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A influência dos astros na vida das pessoas

Perguntavam-lhe pelo signo e ele respondia, todo lampeiro: - Sanitário. Efectivamente, passava o dia na retrete.

A hora das gaivotas 6

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Afonso Lopes Vieira 2

Leve, leve, o luar

Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.

E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidéria
das coisas que embebe o luar.

A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.


"País Lilás, Desterro Azul", Afonso Lopes Vieira

(Afonso Lopes Vieira nasceu no dia 26 de Janeiro de 1878. Morreu em 1946.)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Lugares-comuns 286

                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

Contra mim falo

Contra mim falo. Depois respondo-me à letra e geralmente ganho a discussão.

Nova corrida, nova viagem 13

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 24 de janeiro de 2016

O comentador que o país inteiro consagrou

Estão a ver? O Alves dos Santos podia ter sido Presidente da República. E, esse sim, com pertinácia e arreganho.

Vida de cão 124

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

A morte chega pela caixa do correio

Um folheto que me foi metido na caixa do correio convida-me a escolher "um Plano Funerário adequado". Adequado a quê e para quem?, se conto estar morto quando for o meu funeral e quero lá saber de mordomias póstumas. Diz que há um "Plano Magno", praticamente como o gelado, um "Plano Essencial", que não faz bem nem mal, e um "Plano Popular", como o partido do Paulo Portas. Em qualquer dos casos, são garantidos "serviço personalizado a partir de 995 euros" e uma vasta "experiência", o que também deixa muito mais descansado o defunto mais exigente.
A caixa do correio mete-me medo. Não tanto pelas contas da luz, da água ou do condomínio (embora, rústico que continuo a ser, pagar condomínio ainda me faça uma certa confusão), mas mais pelos avisos das Finanças e do Tribunal. Ainda por cima é uma galdéria, a minha caixa do correio, escarrapacha-se a todos, até aos da pior espécie: aos que perguntam pelo meu ouro e eu não os conheço de lado nenhum, aos que me pedem o meu voto e não me conhecem de lado nenhum e agora até aos que me querem vender a minha morte como se soubessem alguma coisa da minha vida que eu não sei.
Vamos lá com calma. Eu sei que ninguém fica cá para a semente e que se alguém ficar sou eu (mas não é isto que interessa). Sei que provavelmente já por cá andei mais tempo do que ainda vou andar. Mas, francamente, a vida é tão boa e dá-me tantas consumições que tenho mais que fazer do que pensar na morte, do que organizar a minha morte. Quando eu morrer (se morrer), logo se verá. Eu é que já não. Essa é a herança que deixo de bom grado a quem me sobreviver. Se alguém houver.

Por outro lado: a ofensiva cangalheira aguçou a minha curiosidade. Esse é o truque do marketing, mesmo do marketing de trazer por casa. Porta a porta. Admito que estou a pensar pedir um orçamento para a minha morte. Seduziu-me aquela coisa da "Medalha Impressão Digital", que não sei o que é, mas deve ser muito bom para o morto. E também quero que me expliquem muito bem explicadinho o "Contrato de Funeral em Vida". Isso é legal? Funeral em vida?


(Texto escrito e publicado no dia 7 de Novembro de 2012)

Augusto Meyer 2

Gaita

Eu não tinha mais palavras,
vida minha,
palavras de bem-querer;
eu tinha um campo de mágoas,
vida minha,
para colher.


Eu era uma sombra longa,
vida minha,
sem cantigas de embalar;
tu passavas, tu sorrias,
vida minha,
sem me olhar.


Vida minha, tem pena,
tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
como a tua sombra longa;
eu bem sei que vou sonhar
sem colher a tua vida,
vida minha,
sem ter mãos para acenar,
eu bem sei que vais levando
toda, toda a minha vida,
vida minha, e o meu orgulho
não tem voz para chamar.


"Coração Verde", Augusto Meyer

(Augusto Meyer nasceu no dia 24 de Janeiro de 1902. Morreu em 1970.)

A hora das gaivotas 5

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 23 de janeiro de 2016

A língua portuguesa...

- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas. 
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca. 
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.

(Texto escrito e publicado no dia 27 de Dezembro de 2012)

Vida de cão 123

                                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

João Ubaldo Ribeiro 3

Pensamentos, palavras e obras

Em matéria de pecados, aliás em matéria de religião geral, eu sempre achei que a pior coisa é os pensamentos. Na aula de catecismo, que era depois da missa e antes do futebol, quer dizer, a gente só pecando porque não queria assistir o catecismo, nessa aula dona Maria José, com aquelas blusas dela de mangas fofolentas e os olhos piscando o tempo todo e a cara de doente, dizia que se peca por pensamentos, palavras e obras. Palavras e obras, certo, muito certo, certo. Mas pensamento é muito descontrolado, de maneira que todo mundo tinha dificuldades nessa parte, talvez somente dona Maria José não tivesse, porque tudo o que ela pensava era catecismo.
Muitas vezes perguntei a minha mãe - e não perguntei a dona Maria José, porque o que a gente perguntava a ela, ela mandava a gente estudar e escrever uma dissertação, para ler alto no outro domingo - como é que a pessoa fazia para não pecar por pensamentos e ela me disse que bastava não pensar nem besteira nem safadagem. Ora, isso está todo mundo sabendo, a questão é que a besteira e a safadagem aparecem o tempo todo, sem ninguém chamar. Mas de fato era uma coisa muito de admirar que os crescidos todos, na hora da comunhão, iam sem pestanejar, quer dizer, não tinham pecado nem por pensamento, porque senão não iam arriscar a receber o corpo de Cristo com tudo por dentro sujo imundo de pecados. Eu não, eu sempre tive problemas, porque primeiro nunca deixava de esquecer algum pecado e na hora que saía é que eu lembrava e aí ficava com vergonha de voltar ao padre e aí ficava achando que ia comungar sujo imundíssimo. Mas minha mãe disse que não podia fazer lista de pecados, onde já se viu, que na hora o Espírito Santo ajudava, mas ele nunca me ajudou, pelo menos eu nunca notei nada. Enfrentei bastante sofrimento.
[...]

"Livro de Histórias", João Ubaldo Ribeiro

(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)

Lugares-comuns 286

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Viriato Correia 3

Ladrão (Confissão de um assassino)

A minha intenção não era matar. Eu queria apenas furtar a bolsa de dinheiro que a velha trazia.
Foi o diabo quem se meteu no meio. Veja lá se não foi o diabo. Ia começando a escurecer quando ouvi, no terreiro, o latido dos cachorros e um trote de cavalos. Corri à porta. Era uma velha montada numa égua, seguida do bagageiro, um pardavasco de cara amarrada, que trazia no cinto um par de pistolas deste tamanho...
A nossa casa ficava mesmo à beirinha da estrada. Quem ali chegasse à boca da noite tinha que dormir para só seguir viagem quando viessem rompendo as barras do dia. Numa distância de cinco léguas para diante não havia mais pousas, somente a mata escura que o luar não alumiava, morros e socavões que metiam medo à gente.
Eles dois, a velha e o bagageiro, vinham já sabendo que iam ali dormir.
A nossa casa não era grande, mas, como toda a casa de beira de estrada, no sertão, tinha um quarto para hóspedes.
Havíamos acabado de jantar quando eles chegaram. Minha mãe estava na cozinha lavando os pratos. Segurei o estribo da sela para que a velha apeasse, ajudei o bagageiro a tirar a carga dos cavalos, mostrei-lhe os pastos e trouxe a velha para dentro de casa.
Era uma senhora alta, magra, o cabelo como uma pasta de algodão, mas forte e dura ainda, capaz de agüentar os solavancos de uma viagem daquelas. Saltou agarrada à bolsa, a tal bolsa de couro da minha desgraça, enorme, atulhada, que ela trazia segura na mão. Pelos modos, pelos óculos de ouro, pelo vestido, pelos arreios dos animais, percebi logo que se tratava de uma velha rica.
Minha mãe veio-lhe fazer sala e eu fui, com o bagageiro, pear os cavalos na capoeira próxima.

[...]

"Novelas Doidas", Viriato Correia

(Viriato Correia nasceu no dia 23 de Janeiro de 1884. Morreu em 1967.)

Vida de cão 122

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O astrólogo

- E aqui chove sempre assim?
- Quer-se dizer, é de luas...

A hora das gaivotas 4

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Aureliano Pereira

Xénio que arrevoando á miña beira
me bicas co later das túas asas,
xénio da tradición, da lenda musa,
ti que as negruras do pasado rachas
e con marmuxos doces, que somellan
bicar de escumas na areosa praia,
nos falas doutros tempos i outros homes
doutras usanzas e de mortas razas...
¡Xenio da tradición, musa da lenda,
acouga xunto a min... acouga e fala!
 [...]

"A Cova da Serpe", Aureliano Pereira

(Aureliano Pereira nasceu no dia 22 de Janeiro de 1855. Morreu em 1906.)

Lugares-comuns 285

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O lavrador

- Quem semeia ventos, colhe tempestades...
- E o que é que tu percebes de agricultura?...

Lugares-comuns 284

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Aníbal Otero 2

Os Consellos traballaban ó mesmo tempo cós piquetes da morte.
A primeira tanda dende que Esmoriz baixou ó patio xuntou persoas de moi distinta situación. Todos calaban ou protestaban sinceramente a súa inocencia. Un deles era Don Alexo, un médico libertino do que Esmoriz, home enxebre, consideraba que o castigo era xusto. Molestábao que mentres el se abstiña con dolorosos esforzos esperando o momento de ser bastante perfecto e forte para aspirar a unha perfección ideal, outros se lle adiantasen leda e despreocupadamente, sen pena ningunha, no camiño. Esmoriz o deleite inmoderado só o aceptaba unha vez coñecido o mundo, pero non así alodando a súa pureza, coa única que ofrecía posibilidades ó coñecemento. Tamén antes do Consello manifestara un optimismo ferinte; e ó considerarse fóra dos perigos que ameazaban a todos, considerábao tamén excluído das posibilidades de salvación a que daba dereito o sufrimento.
Non embargante, cando ó día seguinte foi pola mañá á súa cela antes del erguerse e lle relatou o resultado do Consello, Esmoriz recolleu profundamente a imaxe do instante, con el na porta entreaberta, pálido e sereno. A lección de dominio sobre si mesmo igualábao ós seus ollos coa luz da mañá, sen necesidade do esforzo de repara-las dúas imaxes, senón trasfundíndoas unha na outra. E as engradas asomáronlle ós ollos naquel espertar. Don Alexo ollouno e Esmoriz quedou no seu entender desculpado de non dicir nada.

"Esmoriz", Aníbal Otero

(Aníbal Otero nasceu no dia 21 de Janeiro de 1911. Morreu em 1974.)

Vida de cão 121

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O meteorologista

- O que tu querias era sol na eira e chuva no nabal...
- E o que é que tu tens contra os microclimas?...

Meat grilled with black bean, of course

Foto Hernâni Von Doellinger

Euclides da Cunha 2

Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par, capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto é, como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem número de outros lugares do nosso país. Toda a Amazônia, sob este aspeto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do Munduba.
É, sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical, preexcelente na movimentação da paisagem, em poucas horas o observador cede às fadigas de monotonia inaturável e sente que o seu olhar, inexplicavelmente, se abrevia nos sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como os dos mares.

"À Margem da História", Euclides da Cunha

(Euclides da Cunha nasceu no dia 20 de Janeiro de 1866. Morreu em 1909.)

Estou mesmo a ver o filme 14

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O objector de consciência

- Chuva civil não molha militar!
- E bala militar não mata civil?...

Vida de cão 120

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Eugénio de Andrade 3

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

(Eugénio de Andrade nasceu no dia 19 de Janeiro de 1923. Morreu em 2005.)

Lugares-comuns 283

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Uxío Novoneyra 2

Patria

É xa hora de que señas toda patria dos teus
dos que gardaron a fala en que máis se dixo adeus
e señas dona de ti e señora de falar
señora de decidir e dona de se negar.


"Do Courel a Compostela", Uxío Novoneyra

(Uxío Novoneyra nasceu no dia 19 de Janeiro de 1930. Morreu em 1999.)

Edifício (vagamente) Transparente

                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O mal-agradecido

- Chove que Deus a dá!
- Escusava era de dar tanta...

Estou mesmo a ver o filme 13

                                                                                                                           Foto Hernâni Von Doellinger

Autran Dourado 2

Os mínimos carapinas do nada

No Ponto, na farmácia de seu Belo, no armazém de secos e molhados de seu Bernardino, mesmo no final das tardes de conversação distinta do Banco Duas Pontes, no gabinete do nobre de alma e de gestos Vítor Macedônio (o belo varão, bem-nascido e gentil-homem), que reunia em torno de si (ali se servia do melhor conhaque francês) os potentados do café como o coronel Tote ou ilustres desocupados como seu Bê P. Lima, maledicente e boa-vida, mas de berço, enfim nas várias ágoras da cidade onde se comerciava a novidade, a imaginação, o ócio e o tédio...
Nas janelas das casas terreiras de grandes e pesadas janelas de marco rústico, baixo e retangular, junto das calçadas, onde se ficava sabendo de tudo pelos passantes que iam e vinham (como era bom se debruçar e bater dois dedinhos de prosa ou fugir para dentro, se quem apontava na esquina era um maçante), de tudo se sabia sem carecer de estafeta e selo, as notícias e novidades: quem andava pastoreando quem, aquela que tinha caído na vida e agora era carne nova, estava de rapariga na Casa da Ponte, na testa de quem apontara o broto de futura e soberba galhada...
Mesmo nas nobres sacadas de ferro, nas janelas de ricos sobrados, podia-se ver a qualquer hora do dia, no enovelar lento do tempo, os carapinas do nada, ocupados na gratuita e absurda, prazerosa ocupação.
Eram os carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos, dizia o sapientíssimo, alambicado, precioso dr. Viriato. Quem não tem o que fazer, faz colher de pau e enfeita o cabo, vinha por sua vez o proverbial, memorioso, eterno, pantemporal noveleiro Donga Novais, uma das poucas pessoas a não se entregar inteiramente ao vício e paixão da cidade. É porque para ele a entidade metafísica do tempo não existe (como para os platônicos que, ao contrário dos hebreus, não tinham o senso da historicidade, lidavam com o puro universal), passado, presente e futuro são uma coisa só, retrucava o dr. Viriato súbito espantosamente aderindo à fiação e tecelagem dos nossos mitos. Ele que era um cientista exaltado, um agnóstico convicto, de dialético linguajar maneirista que demandava precioso raciocínio, imaginação, dicionário.
[...]

Autran Dourado 

(Autran Dourado nasceu no dia 18 de Janeiro de 1926. Morreu em 2012.)

Águas passadas

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 17 de janeiro de 2016

Um grande nome

A organização tinha prometido um grande nome em palco e cumpriu satisfatoriamente. Quando as luzes se acenderam, o artista chamava-se, com efeito, José Manuel-António Ferreira Rocha Vieira da Silva Pereira Gonçalves Ribeiro e Castro Melo Antunes Bastos Monteiro Neves Brochado Macedo Nogueira Santos Oliveira Costa Rodrigues Martins Carvalho Marques Almeida Cunha Pires Lopes de Perestrelo e Lencastre.

Vida de cão 119

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Maria Eugénia Cunhal 2

Quando vieres

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora 

Quando vieres.

"Silêncio de Vidro", Maria Eugénia Cunhal

(Maria Eugénia Cunhal nasceu no dia 17 de Janeiro de 1927. Morreu em 2015.) 

sábado, 16 de janeiro de 2016

A hora das gaivotas 3

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Valentim Magalhães 2

A Ideia Nova

Abisma o teu olhar no azul do firmamento;
Devassa o velho Olimpo e o velho céu cristão:
À serena altivez do seu deslumbramento
A indagadora vista elevarás em vão!


Está deserto o céu! No grande isolamento
Palpita, ensanguentado, o sol - um coração.
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?


Morreram. Era tempo. Agora encara a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da escola um hino.
O Gênio enterra o Mal em uma negra cova.


Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálix purpurino.
Vem perto a Liberdade. É isto a Ideia Nova.


"Rimário", Valentim Magalhães

(Valentim Magalhães nasceu no dia 16 de Janeiro de 1859. Morreu em 1903.)

Lugares-comuns 282

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O mal da eternidade é que é para sempre

Republicano dos sete costados, porém sacrista nos tempos mortos, dava-lhe um certo desconforto saber que ia passar a eternidade no reino dos céus.

Vida de cão 118

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

O analfabeto

- Eu chovo, tu choves, ele chove...

Baby sardine, of course

                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O aferidor de pesos e medidas

- Esta noite choveu a cântaros!
- A almudes, se faz favor...

Caminhando sobre as águas

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Era uma vez um cão

Havia um cão que tinha um dono muito bem mandado. Obediente, brincalhão, carinhoso, esperto - só lhe faltava ladrar...

A ver navios 66

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Franklin Távora 2

Pasmado é uma velha povoação, outrora aldeia de índios, duas léguas ao norte de Iguarassú, na estrada de Goiana. É célebre por seus ferreiros, ou mais especialmente pelas facas de ponta que estes fabricam, as quais passam pelas melhores de Pernambuco, onde têm estendida e tradicional nomeada. Não há terra que se não distinga por usança, defeito, qualidade ou particularidade local, que vem a ser o seu como traço característico, a sua feição dominante. Quem passa por Tigipió, na estrada de Jaboatão, encontra a cada canto tocadores de viola que vêm alegres, e pé no mato pé no caminho. Dos casebres do Barro o que logo se mostra aos olhos do viandante são mulheres metediças, com as cabeças cobertas com flores, os cabeções arrendados e decotados, os seios quase de fora. Costumes dos povoados onde ainda não tiveram grande entrada o trabalho e a instrução.
Passando-se por Goiana ouve-se daqui uma trompa, dali um baixo, adiante um pistom, além um trombone, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma harmonia ou uma melodia qualquer, e não se vê sala nem corredor que não tenha nas paredes uma, duas ou três ordens de gaiolas com passarinhos cantadores e chilreadores. Há aí o instinto músico da Bohemia.
Quem atravessa Pasmado pela primeira vez, tem a ilusão de que todas as arapongas da mata próxima estão ali a soltar seus estrídulos acentos. Mas logo vê homens tisnados batendo com o martelo sobre a bigorna, foles assopradores, carvões ardentes e flamejantes. Então a ilusão muda. O que parece é que todas as forjas de Vulcano foram transportadas para aquele imenso laboratório de instrumentos mais destruidores do que conservadores da vida e do sossego alheio.

"O Matuto", Franklin Távora 

(Franklin Távora nasceu no dia 13 de Janeiro de 1842. Morreu em 1888.)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Tiago de Castro na Biblioteca Municipal de Fafe


"De Volta às Origens". Exposição de pintura de Tiago de Castro, até ao dia 16 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal de Fafe. Mais informação, aqui e aqui.

Lugares-comuns 281

                                                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

O previdente

- Nem que chova canivetes?
- Exactamente.
- Abertos?
- Não há problema...
- E se forem picaretas?
- Fechadas?...

Lugares-comuns 281

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Rubem Braga 3

O desaparecido

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

"A Traição das Elegantes", Rubem Braga

(Rubem Braga nasceu no dia 12 de Janeiro de 1913. Morreu em 1990.) 

Lugares-comuns 280

                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Na minha terra gomitava-se

Gosto do falar da minha terra - do falar antigo, quero dizer. No meu tempo de Fafe, escupia-se muito, com vossa licença, mas sobretudo gomitava-se, façam favor de desculpar. Gomitava-se com assinalável categoria, como nunca mais vi gomitar por este mundo fora. E, tomem nota, em Fafe gomitava-se a tinto e branco, e não por qualquer intenção de afronta à gramática, que nem seria. Nada disso. Na minha terra gomitava-se, naturalmente, porque nos davam gómitos.

Vida de cão 117

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Oswald de Andrade 3

Erro de português 

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


Oswald de Andrade 

(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)

Lugares-(in)comuns 139

                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 10 de janeiro de 2016

Naquele tempo

Naquele tempo, disse Castro Mendes aos seus discípulos: - Não temais, estais por minha conta e nada vos faltará. Ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e... pagai.

Lugares-comuns 279

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

José Américo de Almeida 3

À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que procura acender o cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele voltava a sonhar. Amor - pólvora que se acaba com a primeira explosão, Amor que sabe a frutos apodrecidos. Era como o caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para chegar antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde por todos os sentidos e é mais imaginação que materialidade, como a saudade do que se não gozou. Crise das uniões retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada, por uma jura indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as prendas ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando as portas se cerravam, cerrava-se-lhe o coração.

"A Bagaceira", José Américo de Almeida

(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)