sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A faneca, entre o crime e a falta de educação

Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que, a seguir a uma época de sardinha que foi uma desgraça, a faneca apareceu-me este ano com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Tenho-me regalado.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 21 de Março de 2012, então sob o nome de "Fanecamente falando", mas também já se chamou "Em nome da faneca, ou quando o piropo é crime". Repito-o mais uma vez porque gosto muito de fanecas e de mamas, e também por causa de uma notícia que vi hoje sem querer no JN.)

A ver navios 106

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Jerônimo Francisco Coelho

Gigantesco caudal, largo e profundo,
Sob o céu do equador, um leito undoso
Arroja um mar nos mares, majestoso
Rio, rei dos rios desse mundo.


Regando um solo, vai grande e fecundo,
Em ricas produções, solo ditoso,
Que abriga um povo forte e generoso,
Das plagas amazônicas oriundo.


Dias serenos, dias de esperança,
Neste asilo de paz, tranqüilidade,
Gozei da vida em plácida bonança.


Dele parto saudoso e triste, ausente,
No grato peito meu vive lembrança
Deste céu, desta terra, desta gente.


Jerônimo Francisco Coelho

(Jerônimo Francisco Coelho nasceu no dia 30 de Setembro de 1806. Morreu em 1860.)

Caminho 232

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Outubro é mês de Jazz em Fafe


Segunda edição da iniciativa Jazz em Fafe, a encher todo o mês de Outubro. Concertos, oficinas, conversas, conferências e, em destaque este ano, a presença de Bernardo Moreira. Actividades com entrada livre e abertas a todos os públicos. Programa e mais informação, aqui.

Lugares-comuns 423

                                                                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Luís Miguel Nava

Paisagem citadina

A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados. 


"O Céu Sob as Entranhas", Luís Miguel Nava

(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)

Lugares-comuns 422

                                                                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Plínio Marcos

Minha mãe e eu fomos pra rua. Pra comemorar a liberdade, minha mãe me embrulhou num chale, me largou na porta do puleiro da velha porca e se abilolou de vez. Meteu cachaça na caveira até transbordar pelas orelhas, ou até acabar a grana. Sei lá. O que sei é que, quando estava bem chapada de pinga, bebeu querosene. Foi pras picas. Mas devagar. Devagarinho. Saiu do boteco e foi cair na porta da igreja do Valongo. Custou paca pra ir pro beleléu. Ficou um cacetão de tempo no chão se contorcendo como uma minhoca. Gemia, chorava, vomitava, cagava, mijava, chamava por Deus, pelos santos, pedia por mim. Tinha um monte de gente vendo. Mas ninguém se doía. Ninguém chamou ambulância, nem porra nenhuma. Aqueles veados miseráveis eram todos surdos pra dor dos outros.

"Querô, Uma Reportagem Maldita", Plínio Marcos

(Plínio Marcos nasceu no dia 29 de Setembro de 1035. Morreu em 1999.)

Caminho 231

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Newton Rossi

Onde está Deus? 

Onde está Deus? Pergunta o cientista,
Ninguém O viu jamais. Quem Ele é?
Responde, às pressas, o materialista:
Deus é somente uma invenção da fé!


O pensador dirá, sensatamente:
Não vejo Deus, mas sinto que Ele existe!
A Natureza mostra claramente
Em que o poder do Criador consiste.

Mas o poeta dirá, com a segurança
De quem afirma porque tem certeza:
Eu vejo Deus no riso da criança,
No céu, no mar, na luz da natureza!

Contemplo Deus brilhando nas estrelas,
No olhar das mães fitando os filhos seus,
Nas noites de luar, claras e belas,
Que em tudo pulsa o coração de Deus!

Eu vejo Deus nas flores e nos prados,
Nos astros a rolar pelo infinito,
Escuto Deus na voz dos namorados
E sinto Deus nas lágrimas dos aflitos.

Percebo Deus na frase que perdoa,
Contemplo Deus na mão que acaricia,
Encontro Deus na criatura boa
E sinto Deus na paz e na alegria!

Eu vejo Deus no médico salvando,
Pressinto Deus na dor que nos irmana,
Descubro Deus no sábio procurando
Compreender a natureza humana!

Eu vejo Deus no gesto de bondade,
Escuto Deus nos cânticos do crente.
Percebo Deus no sol, na liberdade,
E vejo Deus na planta e na semente!

Eu vejo Deus, enfim, por toda parte.
Que tudo fala dos poderes Seus,
Descubro Deus nas expressões da arte,
No amor dos homens também sinto Deus!

Mas onde eu sinto Deus com mais beleza,
Na Sua mais sublime vibração,
Não é no coração da natureza,
É dentro de meu próprio coração.

"Alma da Rua", Newton Rossi

(Newton Rossi nasceu no dia 29 de Setembro de 1926. Morreu em 2007.)

Lugares-comuns 421

                                                                                                                            Foto Hernâni Von Doellinger

Alexandre Cribeiro

Se soubeses Antón
como me doe a dor da túa dor

pasada,
que baleiro de verba se produce
se te lembro.
Se soubeses, Antón.


"A Señardade no Puño", Alexandre Cribeiro

(Xosé Alexandre Cribeiro nasceu no dia 29 de Setembro de 1936. Morreu em 1995.) 

Caminho 230

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Samora Machel

Onde te encontrar?

Não te encontrei na casa.
  Mas no rosto de toda a gente,
    na machamba e na horta,
     Vi-te viva.


Encontrei-te nas crianças
  e nos velhos,
   nas mulheres,

    nos adultos e nos inválidos,

Encontrei-te na vida nova
  que cresce
    também

     pelo teu exemplo e sangue.

Não conheço a tua tribo,
  não conheço a tua região
   não conheço a escola que frequentaste.

Conheço-te
  e encontro-te em toda a gente que vive a transformação.

Tinha razão de te amar,
  que amei-te nas qualidades novas,
   os valores que criam a esperança de amanhã.

É doloroso assim
          perder a mulher

            que foi mãe nas crianças,
              irmã nos camaradas,
                 companheira nas armas
                    e ternura no amor.


É doloroso perdermos o quadro.
  É doloroso perdermos a mulher
    que soube na revolução emancipar-se.

É doloroso perdermos-te
  quando ainda somos tão poucos
   e tanto resta a fazer.

É doloroso perdermos
  aquela que combinou a inteligência
   com o matope para fazer crescer a planta nova.
É doloroso perdermos
  quem no mundo, na pátria,
   assumiu a nova mulher moçambicana.

É doloroso perder
    a força da tua juventude,
      a generosidade pela vida
        que desprezou o sacrifício
          até à morte.

É doloroso
   ver cair a árvore jovem.

É doloroso.
    Doloroso

       como o fogo
         que torna o ferro maleável
            para que este seja enxada.
Doloroso
    como a lâmina da enxada ferindo a terra
      para que a semente cresça.

Doloroso porque necessário.
     Doloroso.
        Por isso
         seremos mais e melhores
          e iremos mais longe,
           dolorosamente estimulados
            pelo teu exemplo. 
Como teu marido
     enraízo-me na tua recordação
         para encontrar a força de continuar
            a longa marcha
               até à vitória final.
 

Assim,
     na luta,
         na revolução,
             te encontro continuamente.
A minha vida pertence à revolução.

 Samora Machel

(Samora Machel nasceu no dia 29 de Setembro de 1933. Morreu em 1986.)

Lugares-comuns 420

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

António Jacinto 3

Monangamba

Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;


Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- Monangambéée...
 

António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.) 

Vida de cão 162

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Araújo de Figueiredo

Sombras amigas

Sombras da noite, leves como as aves,
Aconchegos e frêmitos de amores,
Que em nossas asas de esquisitas cores
Subam para o Alto os meus anseios graves.

Sombras flébeis, tenuíssimas, suaves,
Emigras de um chão de negras flores,
Levai-me as mágoas e as secretas dores
Pelas mais altas e silenciosas naves...

Ascendendo às alturas das montanhas,
Que os meus anseios de ferais entranhas,
Que todo esse clamor de ansiedade

Erre junto de nós, sombras da noite,
E numa estrela rútila se acoite,
Em busca de repouso e de piedade.


"Ascetério", Araújo de Figueiredo

(Araújo de Figueiredo nasceu no dia 27 de Setembro de 1865. Morreu em 1927.)

Lugares-(in)comuns 202

                                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

Vinicius Meyer


Saudade

... e o canto dolente
da gente da terra,
monótono e longo,
findando-se em ais!

 ... e as noites tão longas,
cruzadas de luzes,
pejadas de gritos,
inçadas de cruzes!

... e o sol que requeima,
e a terra que arde,
e o eito escaldante
nas horas da tarde!

... e os olhos morenos,
nostálgicos, ternos,
que nele pousaram,
dormindo silentes!

Tudo acompanha o estrangeiro triste,
que, da popa do navio,
lança os olhos,
como mãos aflitas,
para a terra que some,
que some entre praias ardentes.

Saudade, por que acompanhas o estrangeiro triste?
Por que o acompanhas aos países frios,
tu que moras nas terras tropicais?

Saudade:
passageira da popa dos navios,
esperança que olha para trás...

"Poemas Caboclos", Vinicius Meyer

(Vinicius Meyer nasceu no dia 27 de setembro de 1906

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

The bridge in blue

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Troco neto por um cão (pago a diferença)

Três rapazes nos arrabaldes dos sessenta anos bem servidos, certamente amigos de longa data, gente bem, meninos da Foz no seu tempo, fazem o costumeiro passeio higiénico matinal na avenida à beira-mar. O da esquerda empurra um carrinho de bebé com uma vaidade que só vista, e é bonita de se ver. Os outros dois vão à rasca até às orelhas, envergonhadíssimos com "a situação", evitam ser reconhecidos por quem passa, como eu, que não os conheço de lado nenhum, mais desconforto era impossível. O da direita puxa o do meio pela manga e diz-lhe, tapando a boca com a mão, como fazem agora os treinadores e jogadores de futebol quando querem falar da mãe de alguém: - Se inda ao menos fosse um cão, um cãozinho! Agora o caralho do neto...

P.S. - Não é metáfora política. É a vida.

(Texto escrito originalmente do dia 3 de Junho de 2016. Repito-o por causa de uma entrevista do DN de hoje.)