terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Estou mesmo a ver o filme 42

Foto Hernâni Von Doellinger

Pedro Nava, poeta bissexto

Reflexos

Poça
Pedra
Tibloung
blong

A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água

Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando

CONCÊNTRICOS

anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da

Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas

Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
bambos
rolando
no reflexo imprevisto

Onda
margem
schlapp
plap
plaff

O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo-le-men-te

Os telhados bêbados
tentaculizam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar

O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL

Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
 
Pedro Nava

Mexendo os cordelinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 111

What an excellent day for an exorcism...

Os passarinhos, tão engraçados 19

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 7

A ordem dos factores nem sempre é arbitrária
- O meu problema foi deitar as canas e apanhar os foguetes - explicava o maneta.

Assim e assado
- Há dias assim...
- E dias assado?
- Assado, não. Só aos domingos.

Não há condições
As condições reuniram. Verificada a falta de quórum, cada condição foi à sua vida...

Rio-me por tudo e por nada
Gosto das escorregadelas em casca de banana. É humor de casca-grossa. Mas prefiro os trambolhões em pele de cereja - piada fina. A vida é uma comédia e há quem não saiba...
 
Conversa de mulheres
- E eu disse-lhe: foi assim, assim, assim...
- Disse?
- Disse.
- Não me diga...
- Disse.
  
Achei uma carteira
Achei uma carteira e dirigi-me ao polícia mais próximo. O polícia disse-me educadamente mas para que é que eu quero esta merda, ó excelentíssimo indivíduo? Para acender o caralho do cigarro, ó ilustre autoridade, expliquei eu não menos cortês. Efectivamente a carteira era de fósforos.

Remédio santo
Eu tinha um problema: enfiava-me no guarda-fatos a comer nozes, o que me provocava imensas aftas. Fui ao médico: mandou-me comprar um baú para substituir o guarda-fatos e tenho andado muito bem.

Comida, carros e gajas
- Eh pá, vocês só falam de comida!... - estão sempre a acusar-nos, a nós, aos do Norte. E sem razão. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto dos portugueses.

Com os copos não há meias medidas
Há duas posições fundamentais nos copos: o copo cheio e o copo vazio. Ao copo cheio dá-se-lhe um beijinho e o copo vazio deve ser absolutamente escorropichado. O resto é conversa.

Vai pela sombra 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Paulo Mendes Campos

Três coisas

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

 
O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

 
Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

 
O tempo levanta o muro.
 

A morte será o escuro?
 

Em teu olhar me procuro. 

Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)

Lugares-comuns 512

Foto Hernâni Von Doellinger

Armando Côrtes-Rodrigues

Canção do mar aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio,
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas,
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.


"Planície Inquieta", Armando Côrtes-Rodrigues

(Armando Côrtes-Rodrigues nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1891. Morreu em 1971.)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Como disse?!

Foto Hernâni Von Doellinger

Tomates

- Resistência ou resiliência?
- Tomates.

Coreto 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 6

São uns pontos 1
E daquela vez em que o ponto final fez sociedade com o ponto de cruz? Foi de morte.

São uns pontos 2
Diz o ponto cardeal ao ponto de rebuçado: não te armes em papa.

São uns pontos 3
Eram três e perigosos. Chamavam-lhes Reticências...

São uns pontos 4
O defeito do ponto e vírgula? Tem a mania que é mais que os outros.

São uns pontos 5
Antes ponto de embraiagem do que ponto morto.

São uns pontos 6
- PowerPoint! - gritou o ponto negro, de punho erguido.

São uns pontos 7
Aventureiro por natureza, o ponto de vista só tinha um medo - as cataratas.

São uns pontos 8
Morreu o último ponto de ordem à mesa. De fome - é o que consta.

Mormente
- Então, vizinho, o que me diz?
- Digo, sobre quê?
- Sobre tudo...
- Sobretudo? Ah! Acho que nomeadamente.

Pai só há um
"Pai só há um", lamentou-se o professor-ensaiador, espreitando pela cortina a plateia esgotada do teatrinho escolar. "O resto é tudo mães. Galinhas"...

A bó, o bô e o bu
Tínhamos a bó e tínhamos o bô. Vezes dois, sorte a nossa! Bozinha era a bisavó, e tínhamos. Bô queria também dizer bom: binho bô; bô moço. Depois, se calhar por soar a parolo, bô mudou para bu. Bu também mete medo, é susto. Buuu! Quem caralho teve a ideia?...

Se bem me lembro 11

Foto Hernâni Von Doellinger

Ruy Belo 4

Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor


Ruy Belo

(Ruy Belo nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1933. Morreu em 1978.)

Vida de cão 203

Foto Hernâni Von Doellinger

Albino Magaia

Inundação

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.
 
Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.
 
Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…
 
Milho afogado e batata-doce morreu!
Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?

Albino Magaia

(Albino Magaia nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2010.)

A ponte é uma passagem 7

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Fruta low cost, indexada à cotação do Brent

Na beira da estrada, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros: "Fruta low cost".
Parei. Perguntei:
- Esta fruta é mesmo low cost?
- Low costíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como diz o nosso povo: às vezes o low cost sai high cost...
- Que interessante conversa! Agora que já somos praticamente amigos, diga-me lá: cinco euros a caixa é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Não venhas tarde...

Lugares-comuns 511

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 5

O falso lateral direito
Era um falso lateral direito. E foi rapidamente apanhado pelos serviços secretos.

Pontualmente a pontualidade não compensa
Chamavam-lhe o Atraso de Vida ou o Não Venhas Tarde, dependia se o ano era normal ou bissexto. Porque ele nunca chegava a horas a lado nenhum, fosse trabalho ou lazer. Uma vez teve a morte marcada e vejam lá: atrasou-se como de costume, apareceu vinte minutos depois. Resultado: ainda hoje aí anda...

Poder e onanismo
O exercício do poder é uma actividade profundamente solitária. A masturbação geralmente também.

A prima vera
A prima Vera era boa como milho; casou-se e estragou-se.

A realidade é inexorável, sobretudo se for fresca
- Mais vale tarde que nunca - disse o pragmático. Já passava do meio-dia e não havia volta a dar...

Ligeiramente chateada nos pólos
Agora é que a Terra está ligeiramente chateada nos pólos. Derivado ao aquecimento global e respectivos degelos, que são sempre desagradáveis. E isto é científico.

O distraído
Quando deu fé, já era ateu.

Profundo 1
Bolo de bolacha é bom. Bala de borracha não.

Profundo 2
"Penso, logo existo". Que chatice...

Serviço de esplanada 2

Foto Hernâni Von Doellinger

João Bastos

Descortesia

De novo enfim nos encontramos. Como
mudaste, amor! Não estarias, certo,
assim gorda e viçosa, qual um pomo,
se esses meses de mim passasses perto...

 
A mão sorrindo me apresentas. Tomo
os dedos brancos que de leve aperto.
Na palma o olhar fixando, leio e somo
todas as faltas, como em livro aberto.

 
E pensar que ainda ontem... Grande tolo!
que ainda ontem cheguei a ter vontade
de chorar, tão profundo desconsolo

 
me trouxe a última carta que escreveste:
­- "estou tão triste... morro de saudade..."
E nem por cortesia emagreceste!...


"Caminhos da Vida", João Bastos

(João Bastos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1898. Morreu em 1962.)

Os passarinhos, tão engraçados 17

Foto Hernâni Von Doellinger

José Mauro de Vasconcelos 4

O grito de minha mãe vinha de lá de dentro, imperioso:
- Vai ficar a vida inteira no banheiro?!... Olhe o colégio!... Você precisa ficar pronto para o colégio!... São quase oito horas!... Olhe o colégio!... O colégio!... COLÉGIO!... CO-LÉ-GIO!...

Deus meu, como uma palavra podia tanto encher uma manhã que fora era tão bonita! Diabo de tanto colégio! Besteira a gente sentar a bunda num banco de madeira e passar a vida inteira ouvindo sobre Matemática, Religião, Geografia... Não, Geografia, não. Como era bom saber o nome de tudo, dos rios, dos países. Quando vinha minha caderneta de nota os comentários sempre apareciam da mesma forma: Geografia é matéria de vadio, vagabundo...
Colégio!...
E quando iria acabar aquela angústia toda? Breve faria quatorze anos e depois que operara a garganta até que parecia mais. E por parecer mais é que me demorava fascinado decorando o meu rosto no espelho. Espinha não queria dizer nada, porque com o tempo passava. Duro era o nariz. Nariz de batatinha roxa, nojento. Nojento, pois que meus olhos pequenos, meu cabelo ondulado, meu pescoço que ficara forte e o jeito que meu peito tomava por causa da natação praticada às escondidas no Rio Potengi. Mas o nariz... pra que a gente tinha nariz? Meu tio possuía um digno nariz de papagaio, mas era nariz. Depois que eu li o baile de um livro chamado "4 mulheres" e que uma menina colocou um pregador de roupa no nariz para afiná-lo, foi pior. Fiz a mesma coisa e, em vez do nariz de batata, fiquei com um pimentão. Nem olhava para o povo de casa com vergonha, durante as refeições.
Colégio!...
Pronto. Vestia a farda, pegava os livros.


"Doidão", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

Lugares-(in)comuns 240

Foto Hernâni Von Doellinger

Roberto do Valle

É vaidade

volvo esquivo
e investigo
o suborno
da vaidade
durante o lance.
depois a fossa, a caixa
de ferramenta ouro antigo
como autonovela e cantos
de amargor, mas a frase cai
no chão como um trapo
depois dela proferida
depois da sub-ornamentação
e eu fico sozinho desnudado.
autonovela compacta termina
e resta uma como
lâmina nefasta.


"A Caneca", Roberto do Valle

(Roberto do Valle nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1934. Morreu em 2011.)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

António Costa passa a fazer praia em Matosinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

O primeiro-ministro António Costa veio em Dezembro a Matosinhos inaugurar o conjunto escultórico, assim lhe chamaram, de homenagem aos irmãos Passos - Manuel da Silva Passos, o tal Passos Manuel, e José da Silva Passos.
O primeiro-ministro António Costa veio hoje a Matosinhos visitar pela primeira vez, assim se disse, o Terminal de Cruzeiros de Leixões.
É. As próximas eleições autárquicas e o PS de Matosinhos, o tal saco de gatos, estão a dar muito trabalho ao primeiro-ministro António Costa.

E por mim falo: conto cá com o primeiro-ministro António Costa na procissão do Senhor de Matosinhos e na bênção ao mar do Mártir São Sebastião. Pelo menos...

Offshore, se fashavore 16

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 110

Vai lamber sabão!

É Carnaval, e não está mal

Foto Hernâni Von Doellinger
Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 4

Dupla penetração
Quitério tinha 51 anos quando, pela primeira vez, foi clinicamente submetido ao famigerado toque rectal. Nesse mesmo dia soube também que ia perder o emprego. Somou um mais um e pensou: "Então é a isto que eles chamam dupla penetração"...

A diferença
A diferença entre um embaixador da Unicef e um embaixador da Unicer é da ordem dos 5,2% vol.

O andar de John Wayne
Gostava de ter um andar como o do John Wayne. Vivia num T0 com vista para a parede...

Omertà
The End, disse o filme. E não voltou a abrir a boca.
 
Cientificamente provado
O álcool afecta de forma diferente o homem e a mulher. O mercurocromo não.

Cuidado com as constipações
Água vai! Mas vinho ainda vai melhor...

O tempo para hoje
Os especialistas do tempo prevêem para hoje um dia com 24 horas.
 
Uma tarde bem passada
Uma tarde bem passada precisa de pelo menos dois minutos de cada lado.

Eis a notícia
É Inverno. E está frio. Parece impossível...

Mais vale ser quase do que realmente
A família é uma coisa muito estranha. Já repararam que o mais forte laço familiar acaba por ser aquele que une as pessoas que "é como se fossem da família"?...

E se uma flor lhe oferecer desconhecidos?
Deixe-se de merdas. Veja lá o que é que anda a fumar... 

Lugares-(in)comuns 239

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 3

Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos era-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima trocado por dois rapazes de vinte e cinco... 

Alma de poeta
Tinha alma de poeta. E os seus dentes saím-lhe à alma: eram hipersensíveis, dizia-lhe o dentista...

Jornalistas 1
Perguntaram-lhe:
- Profissão?
- Jornalista, do grupo dos vertebrados.
- Portanto...
- Desempregado.

Jornalistas 2
Perguntaram-lhe:
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.

Finalmente excêntrico
Saiu-lhe o Euromilhões. Alugou uma limusina e convidou os amigos para uma almoçarada aí por esse fim do mundo. Três euros e quarenta e dois cêntimos darão para ir até onde?...

Natal em Fevereiro 1
Um conto de Natal era geralmente uma seca. Já um conto de réis eram mil escudos. Uma pipa de massa naquele tempo, é preciso que se note.

Natal em Fevereiro 2
Ele: - Presente de Natal porreiro era um emprego, isso é que era.
Ela: - Não queres antes um par de meias? 

Natal em Fevereiro 3
Ele: - Presente de Natal porreiro era o António Domingues e Lobo Xavier fecharem a matraca, isso é que era.
Ela: - Não queres antes um pacote de Sugus? De framboesa...

Natal em Fevereiro 4
Ele: - Presente de Natal porreiro era um par de sapatos, isso é que era.
Ela: - Não queres antes um par de cornos?...

Ó Leonilde is love

Foto Hernâni Von Doellinger

Cesário Verde 4

Manias

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz - hoje uma ossada -,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa
O livro com que a amante ia ouvir missa!

"O Livro de Cesário Verde", Cesário Verde

(Cesário Verde nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855. Morreu em 1886.)

Mãe, agora sem mãos...

Foto Hernâni Von Doellinger

João Gaspar Simões

Em Juvenal, a inteligência dava-lhe para aquilo: para se negar, para se complicar, para se dissolver por dentro. Assim, inútil pensar em viver. Para viver há que fechar os olhos e parecer cego. Para amar também.

"Pântano", João Gaspar Simões

(João Gaspar Simões nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1903. Morreu em 1987.)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Aqui há gato 32

Foto Hernâni Von Doellinger

Teófilo Braga

O cego e o moço
 
Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço:
- Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão.
- Pela minha salvação, que não deram senão pão.
- Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
- Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
- Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
 
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?

"Contos Tradicionais do Povo Português", Teófilo Braga

(Teófilo Braga nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1843. Morreu em 1924.)

Offshore, se fashavore 15

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 2

Noé faleceu aos 950 anos, inesperadamente
Noé, como todos os homens especialmente abençoados por Deus, era um incorrigível optimista. De hora a hora, dia após dia, durante quarenta dias, espreitava à janela da Arca, desviando a cortininha de chita estampada em degradê, e dizia à mulher: "É só um aguaceiro"...

O que é preciso é saber pedir
Cátia Soraia está na universidade e escreveu à mãe a pedir um concelho. A mãe, que é rica e boa alma, mandou-lhe Freixo de Espada à Cinta. 

Violência 1
Batata a murro apresenta queixa por violência doméstica.

Violência 2
Chegou a casa e, como de costume, bateu à porta. Desta vez, a porta da vizinha chamou a polícia.

Violência 3
Bateu à porta e disse-lhe: agora vai fazer queixa à mãezinha...

A indignação e a revolução
A indignação é a mãe de todas as revoluções! Era. Até aparecer a pílula do dia seguinte...

A última palavra
- Senhor deputado, tem vosselência direito à última palavra.
- Muito obrigado, senhor presidente. Senhor presidente, senhoras e senhores deputados: zus!

Quadrúpedes
O cavalo é um quadrúpede. Meio polvo, também.

O amor é lindo
O amor é muito lindo. O jackpot do Euromilhões é muito mais.

Cirúrgico
Mal terminou o curso de Medicina, o experiente defesa esquerdo começou logo a fazer faltas cirúrgicas.

Lugares-comuns 510

Foto Hernâni Von Doellinger

David Mourão-Ferreira 4

É quando estás de joelhos

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.


David Mourão-Ferreira

(David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927. Morreu em 1996.)

Caminho 287

Foto Hernâni Von Doellinger

Rosalía de Castro 4

Adios, rios; adios, fontes

Adios, ríos; adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,

prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña do meu contento,

muíño dos castañares,
noites craras de luar,
campaniñas trimbadoras
da igrexiña do lugar,

amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adios, para sempre adios!

¡Adios gloria! ¡Adios contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conozo
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
deixo a veiga polo mar,
deixo, enfin, canto ben quero...
¡Quen pudera non deixar!...

Mais son probe e, ¡mal pecado!,
a miña terra n'é miña,
que hastra lle dan de prestado
a beira por que camiña
ó que naceu desdichado.

Téñovos, pois, que deixar,
hortiña que tanto amei,
fogueiriña do meu lar,
arboriños que prantei,
fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Adios Virxe da Asunción,
branca como un serafín;
lévovos no corazón:
Pedídelle a Dios por min,
miña Virxe da Asunción.

Xa se oien lonxe, moi lonxe,
as campanas do Pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa se oien lonxe, máis lonxe
Cada balada é un dolor;
voume soio, sin arrimo...
Miña terra, ¡adios!, ¡adios!

¡Adios tamén, queridiña!...
¡Adios por sempre quizais!...
Dígoche este adios chorando
desde a beiriña do mar.

Non me olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!,¡meu lar!

"Cantares Gallegos", Rosalía de Castro

(Rosalía de Castro nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1837. Morreu em 1885.)

Lugares-(in)comuns 238

Foto Hernâni Von Doellinger

António Pereira

Rua do mar

A minha rua é só de pescadores,
Famílias ignoradas, marés mortas...
A minha rua não tem nome
Nem tem números nas portas.

Na minha rua o mar é todo o mundo...
Todas as lágrimas e alegrias,
Boas-novas, naufrágios, maresias
- Todas as notícias vêm do mar ao fundo!

António Pereira

(António Pereira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1914. Morreu em 1978.)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um banco razoável

Foto Hernâni Von Doellinger

Já não há moelas de coelho

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, ninguém cozinhava tão bem as moelas de coelho como o meu amigo Peixoto. Fui lá ontem, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. O malandro passou o negócio e não me avisou, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição. Foda-se! Aos poucos vão-se-me acabando os motivos para tornar a Fafe...

Coreto

Foto Hernâni Von Doellinger

José Afonso, sempre

Quem diz que é pela rainha

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados

José Afonso

(Zeca Afonso morreu faz hoje trinta anos)

Offshore, se fashavore 14

Foto Hernâni Von Doellinger

Zeca Afonso lembrado em Fafe

Tributo a José Afonso, amanhã, sexta-feira, dia 24 de Fevereiro, pelas 21h30, na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe. Tertúlia musical e poética, com entrada livre. Mais informação, aqui.

A ponte é uma passagem 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Fernanda Seno 2

Há contentores
às portas das cidades
cheios de gente
como se de lixo.
Há palacetes
dentro das cidades
cheios de luxo
mais do que de gente.
E entre os contentores
e os palacetes
o fosso é evidente.

Fernanda Seno 

(Fernanda Seno nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1942. Morreu em 1996.)

Se bem me lembro 10

Foto Hernâni Von Doellinger

Sant'Anna Dionísio 2

Nestes pedregosos e formidáveis pendores, lanhados de córregos e socalcos - rebos e mais rebos -, planta-se, cria-se, educa-se um arbusto humilde e tenaz, resistente às nevadas boreais e às canículas dos trópicos, capaz de se alimentar de um punhado de xisto ou de cascalhada vulcânica e que dá umas polpas rotundas e odorantes - algumas negras de azeviche, outras doiradas, outras cor de âmbar -, cujo sumo poderia fazer face ao mais delicioso hidromel dos antigos moradores supratemporais do Olimpo.

"Alto Douro Ignoto", Sant'Anna Dionísio

(Sant'Anna Dionísio nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1902. Morreu em 1991.)

Espero que ao receberes esta 19

Foto Hernâni Von Doellinger

Melo Morais Filho

[...]
Quereis ouvir os meus cantos?
Cantarei... não como outrora,
Que impõe preceito aos meus risos
A dor que comigo mora.
 
Canto tristezas e mágoas,
Do tempo ido as lembranças,
Canto desgostos e penas,
Canto o adeus das esperanças.
 
Fundas saudades sem fim,
Perene fonte de prantos,
Queixas amargas, sentidas,
Explicam hoje os meus cantos.

[...]

"Cancioneiro dos Ciganos", Melo Morais Filho

(Melo Morais Filho nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1844. Morreu em 1919.)

Vida de cão 202

Foto Hernâni Von Doellinger

Aurolina Araújo de Castro

Lembrando
Manaus tranquila
tinha ainda
provinciana fisionomia.
 
O sol forte ardia na pele.
 
O bonde,
Abarrotado de gente,
Nos trilhos cantava
a melodia solta
na garganta da tarde,
brilhando em duas longas
paralelas de aço.


"O Lago e Outros Poemas", Aurolina Araújo de Castro

(Aurolina Araújo de Castro nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1933. Morreu em 2004.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Offshore, se fashavore 13

Foto Hernâni Von Doellinger

Pelo Entrudo, Fafe queima o Pai das Orelheiras

Fafe volta a marcar o seu Carnaval com a Queima do Pai das Orelheiras, uma velha tradição popular que andou perdida durante muitos anos. Na próxima terça-feira, dia 28 de Fevereiro, pelas 20 horas, na Praça 25 de Abril (centro da cidade). Mais informação e programa, aqui.

Godzilla?

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 109

Mim Tarzan, tu Jane.

Lugares-(in)comuns 237

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas

É preciso ter azar (ou As grandes decisões devem ser tomadas em cuecas)
No dia em que Quitério decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia. Quitério ficou como um pito. E resolveu, dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

Manifesto 1
Depois de ter dado o corpo ao manifesto, Asdrúbal arrependeu-se e pediu-o de volta. Foi tarde. Quem dá e torna a tirar, ao inferno vai parar... 
 
Manifesto 2
Ivone deu o corpo ao Manifesto. Engravidou e nunca mais lhe pôs a vista em cima.

Havia um pessegueiro na ilha
E era manifestamente pouco. 


É matemático
Antes uma pedra no sapato do que um cálculo renal. 

É o que diz o povo
Em casa de espeto, ferreiro de pau.
      
Vendo pontos de vista para o mar
Eu tenho uma certa maneira de ver as coisas, isso é verdade. Mas não possuo aquilo a que se possa chamar um prisma, uma óptica, sequer um ângulo que se diga. Tivesse-os eu, e vendia-os...

Dá-se um abraço em segunda mão
O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço." O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado." E eu pensei: o meu abraço teria defeito?...
 
O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.

O princípio da sabedoria
O princípio da sabedoria é a letra esse. Essa é que é essa.

Entre o requinte e o requente
A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que é mais perigosa...
 
Austeridade e justiça social
No fundo, estamos todos lixados. Lá em cima é que não...

Sem desculpa
Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa!

Perspicácia
Isto é que tem estado um calor! Será do tempo?...

Vida de cão 201

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 108

Pedimos desculpa pelo incómodo, prometemos ser breves.

Tocam os sinos da torre da igreja 7

Foto Hernâni Von Doellinger

Bento da Cruz

Era, de igual modo, indulgente com os contrabandistas. Além do mais, no Barroso desse tempo o contrabando (um contrabando pataqueiro de alpergatas de corda, pana, boinas, chapéus de palha, cigarros, canivetes, ovos, pão, azeite, fósforos e coisas do género (...) não era considerado crime nenhum, mas um modo de vida como outro qualquer. Um modo de vida estuporado e mal pago.

"O Lobo Guerrilheiro", Bento da Cruz

(Bento da Cruz nasceu no dia 22 de Fevereiro de 1925. Morreu em 2015.)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vai pela sombra 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Não há escola!, não há escola!, não há escola!

Alegria, alegria a sério era aquilo: chegar à escola primária e a "empregada" mandar-me - Vai para casa, diz à tua mãe que a senhora professora está doente. O coração rebentava-me pela boca mal saía o portão, aos gritos e aos saltos - Não há escola!, não há escola!, não há escola... -, Rua Montenegro fora, enervando desnecessariamente o pobre Baptista do Asilo, festejando efusivamente a dor de barriga da professorinha, dando a boa nova aos colegas retardatários, que faziam meia-volta-volver e também saltavam e gritavam - Não há escola!, não há escola!, não há escola!...
(Alegria ingénua, pura, intensa, física. Era evidentemente uma manitestação de profunda catarse, embora eu na ocasião não o soubesse, porque ainda não tínhamos chegado a essa palavra.)
Passávamos a Cafelândia, a Rosindinha Catequista, o Largo, a Loja Nova, o Peludo, o Cinema, a Aurorinha Maia, a Padaria, a Quiterinha, as Grilas, o Funileiro, alarmávamos a vila inteira - Não há escola!, não há escola!, não há escola!... -, eu chegava a casa, no Santo Velho, e a minha mãe, por tradição, dava-me logo dois ou três sopapos por causa daquele "espectáculo todo" e... "para aprender", mas não me roubava a alegria.

Ao longo da minha vida aconteceram-me outros momentos extraordinários, memoráveis, como, por exemplo, o nascimento do meu primeiro pentelho ou a descoberta do tesão, mas, palavra de honra: nada se compara com os dias gloriosos em que chegava à Escola Conde Ferreira e me mandavam para trás...

Offshore, se fashavore 12

Foto Hernâni Von Doellinger

No verde

- A subir ou em alta?
- No verde.

Se bem me lembro 9

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 107

Apelamos à sua compreensão para os inevitáveis incómodos que este tipo de obras acarreta, comprometendo-nos que iremos fazer todos os esforços para os minorar.

Vida de cão 200

Foto Hernâni Von Doellinger

Coelho Neto 4

- E eu? E eu então? Eu que nem mais um fio de cabelo tenho na cabeça, porque as farripas que me restam refugiaram-se na zona do pescoço, como vês? E puxou as mechas com fúria. E, todavia, não tenho um cabelo branco, nem um fio. Voltou-se arrebatadamente para Mamoaselle: Conheci um rapaz, aliás um atleta, que, aos vinte anos, tinha a cabeça com um capulho de algodão. Isso de cabelos brancos não quer dizer nada: é questão de couro, como a vegetação depende em muito do terreno. A velhice não está nos cabelos, mas no interior. Tu, por exemplo, Jorge: tens todas as faculdades íntegras, tens estro, entusiasmo, ideal, és são. Digeres bem, dormes oito horas a fio, pensas com ideias próprias, que mais? Velhos caducos, monstros cacoquimos são esses cretinos que por aí andam como trambolhos entulhando a vida com ignorância e vícios. Esses sim! Chama a um de tais, pede-lhe uma noção. Responderá com ornejo e coice. Velhice... velhice...! É como a tal história das terras cansadas. A Europa dá pão e vinha, linho e azeite desde os primeiros dias do mundo já não falo da Ásia veneranda e não há lá terras gastas. E aqui, com uns séculos de café, açúcar e mandioca já os lavradores queixam-se de exaustação do solo e pedem florestas virgens para o machado e o fogo. Preguiça é que é! Aqui estou eu, à beira dos cinquenta... Pois tenho uma memória de anjo, menos para datas. Para datas sou uma zebra!

"Inverno em Flor", Coelho Neto

(Coelho Neto nasceu no dia 21 de Fevereiro de 1864. Morreu em 1934.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Offshore, se fashavore 11

Foto Hernâni Von Doellinger

José Fernandes Fafe (1927-2017)

Testamento, entre os pinheiros e o mar

Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre a flores silvestres e a espuma...


E o indício de tudo ser pasasado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago

do marulho do mar, mão pelos cabelos...

José Fernandes Fafe

Estou mesmo a ver o filme 41

Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 106

Faltou-nos intensidade e agressividade ofensiva.

A ponte é uma passagem 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Bravo!, bravo!, bravo!, gritou-se na ópera

O São Carlos rebentando pelas costuras, o público, conhecedor, finíssimo, lisboeta, num delírio de palmas compassadas e gritos comedidos (os chamados gritinhos): - Bravo!, bravo!, bravo!...
O touro, um Miura rondando os 650 quilos, assomou à boca de cena e agradeceu, composto e patriótico: - Gracias, muchas gracias!...

Vida de cão 199

Foto Hernâni Von Doellinger

Luís de Sousa Monteiro de Barros

Plenilúnio
 
Noites de estio, noites silenciosas,
Em que a luz do luar imita o dia,
Como é suave à nossa fantasia
Vagar por vossas sendas luminosas!

 
Nada se escuta. As vagas marulhosas
Lambem de manso a negra penedia.
No céu azul os astros à porfia
Vertem no espaço lágrimas saudosas.

 
Por toda a parte a paz, a paz amena
Que o escravizado espírito dilata,
Livre das sombras de aflitiva pena.

 
Pálida lua - lâmpada de prata -
Leva num raio teu de luz amena
Uma saudade minha àquela ingrata.


Luís de Sousa Monteiro de Barros

(Luís de Sousa Monteiro de Barros nasceu no dia 20 de Fevereiro de 1848. Morreu em 1896.)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Offshore, se fashavore 10

Foto Hernâni Von Doellinger

A ordem natural das coisas

O Paços de Ferreira de José Mota, o Rio Ave de Carlos Brito, o Vitória de Setúbal de Manuel Fernandes, o Nacional de Manuel Machado, o Aves do Professor Neca, o Boavista de Manuel José, a Académica de Vítor Manuel, o Varzim de Henrique Calisto, o Marítimo de Nelo Vingada, o Salgueiros de Filipovic, o Vitória de Guimarães de Jaime Pacheco, o Chaves de Raul Águas, o Belenenses de Marinho Peres, o Farense de Paco Fortes, o Portimonense de Vítor Oliveira, o Gil Vicente de Álvaro Magalhães, o Beira Mar de António Sousa, o Braga de Manuel Cajuda, o Felgueiras de Jorge Jesus, o Riopele e o Tirsense de Ferreirinha, o Infesta de Augusto Mata, o Fafe de Nelo Barros, e o FC Porto campeão. Assim eram as coisas e estava tudo certo, eu entendia-me com o futebol e era feliz. Era adepto. Agora? Agora o futebol está de pernas para o ar, chama-se "o jogo" e tem transições e claques profissionais pagas a peso de ouro (ou ao peso do que o receptador aceitar), ninguém é de ninguém, o Benfica ganha há três anos e eu sinto-me perdido...

Estou mesmo a ver o filme 40

Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé María Díaz Castro 3

Terra achaiada

Ei, o sol, niño ardendo nos loureiros!
Alegría do agro cheo de homes!
Nos meus ollos de neno lapas, hoxe
terra rebada.

Lóstrobos enroscados das fouciñas
e voces grandes coma de meu pai!
Ruxir aceso das paveas, hoxe
praias do vento.

Sobre da lapa das espitas, ei!,
un son de frauta ou chafarís de ameixas.
Muiñeiras de anxos polos trigos, hoxe
sombras alleas.

Us beizos duros co cigarro ó enxizgo
moulando hestorias dos cañós de Cuba.
Un neno atúa ós petrucios, hoxe
pó caladiño.

Bérrolle ó sol bendito, ó can raxado
que abrouxa o sono dos carballos, ei!,
ás maus ulindo a tarde espigas, hoxe
terra na terra.

Bérrolle á nena coa mazá nos dentes
que perdéu o seu nome tralo atlántico,
berro nas portas doutro mundo, e non oio
máis que o meu berro!

"Nimbos", Xosé María Díaz Castro

(Xosé María Díaz Castro nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1914. Morreu em 1990.)

O Porto aponta ao céu 11

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Maia

Árvore ferida
 
Ante a constelação do céu florindo em lume
Temos, ó árvore, o mesmo ideal e a mesma sina...
Sangrou-me o peito inerme a sensação divina,
Como a acha te sangrou em golpe de negrume.
 
Dando esmola ao faminto e consolo à ruína
Subimos em bondade, ardemos em perfume...
Bendita a dor criadora, o perfurante gume,
Que em mim produz o verso e em ti produz resina...
 
Ninguém virá curar-te! Apenas os ramalhos
ensinarão à flor a música dos galhos
e ensinarão ao galho as lutas das raízes.
 
Ninguém virá curar-me! Os meus versos apenas
serão o bálsamo desfeito em minhas próprias penas,
sob a ronda de dor dos dramas infelizes.


"Buzina dos Paranás", Álvaro Maia

(Álvaro Maia nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1893. Morreu em 1969.)